quarta-feira, 6 de abril de 2011

Palhaços existem, sim!

Por Aline Almeida

“Se chacoalhar uma árvore, cai um palhaço!”. Se você acha exagero, é porque não está observando com atenção o mundo à sua volta. Todos os anos acontecem quatro grandes festivais que reúnem milhares de artistas circenses. Há também o “Anjos do Picadeiro”, encontro internacional que reúne palhaços do mundo inteiro.

Palhaços? Em árvores? Mas o circo não morreu? Ora, não está ele fadado à extinção?

É difícil que exista alguém que não tenha, mesmo que poucas, lembranças de um palhaço. Na infância de muitos marmanjos, há na memória a imagem de circos, muitos deles de famílias tradicionais que seguiam por centenas de cidades mostrando a arte dos malabares, trapézios, contorcionismo, pirofagia, e muita palhaçada.

Mas, e hoje? Muitas destas famílias não conseguiram manter a vida itinerante e saíram de cena. E mesmo assim, se olharmos ao nosso redor, o circo está presente. Enquanto as pessoas discutem, uma revolução acontece no picadeiro. Enquanto algumas só falam, muitas estudam para serem palhaças.

E não é apenas em grandes eventos que os palhaços estão ‘em pencas’. Em Barão Geraldo, distrito de Campinas, a realidade é essa. Lá existem por volta de 25 grupos de palhaços. Grande parte são estudantes e concluintes do curso de Artes Cênicas da Unicamp. Mas Campinas é apenas um exemplo.


Distante da raridade - “Sou palhaça”. Aos 34 anos, Helena Figueira, já deu essa resposta milhares de vezes. Seja no consultório médico, no banco, a reação é sempre a mesma. “Acham que é brincadeira”, diz, sorridente.

"...Tanto riso
Oh, quanta alegria
São mais de mil palhaços no
salão..."
(Máscara Negra – Composição: Zé Kéti e Pereira Matos)

Ela é bonita, jovem, perspicaz e foge de qualquer estereótipo que se criou sobre palhaços. Ela e o amigo Victor Nóvoa são fundadores e integrantes da Cia Suno que existe há 12 anos. “Eu sou a mais séria”, revela, comparando-se aos demais participantes da companhia. Hoje, o terceiro integrante é Eduardo Becker, seu marido.

Helena começou cedo. Aos três anos começou a fazer dança e nunca mais a arte se distanciou de sua vida. A artista plástica foi para a França aos 18 anos e entrou na Escola Nacional de Circo (École National Du Cirque Annie Fratelinie) após processo de seleção. Helena especializou-se em trapézio e contorcionismo. “Lá todos faziam de tudo. Éramos palhaços, malabaristas, equilibristas...”

E foi nesta escola técnica que a aluna de sorriso fácil chamou a atenção de um professor russo. “Ele, apesar de frio, acreditou que meu jeito espontâneo era interessante”. Por conta disso, o professor incentivou Helena a participar de um processo seletivo para a Paris Action Clown Théatre. “Ele achava que lá precisavam de alguém com vigor. Eram quinze selecionados, e eu entrei”.

A mascote da turma concluiu os dois anos de curso. “Nos fins de semana ficávamos vestidos de palhaço todo o tempo. Acordando, dormindo, comendo... criando. Chegamos a simular a convivência do palhaço com o homem primitivo”, lembra.

A garota dos olhos brilhantes voltou ainda mais três vezes para a França, e deu o ar de sua graça em Londres, por seis meses.

Quantas Helenas em uma? - Por ter nascido em 24 de agosto 1976 , dia do artista, tentar resumir o universo de Helena ao mundo do circo seria injustiça. Ela foi protagonista de filme Jardim Europa (direção de Mauro Baptista Vedia), atuou em várias peças de teatro, e foi professora durante alguns anos.

Nessa última ocupação, conseguiu a prova de que o circo conquista todas as gerações. Helena contava com uma turma de 120 alunos em uma escola de classe alta. Mesmo a disciplina sendo optativa, existia até lista de espera. Para a criança que, não por mera coincidência, nasceu no dia da infância, essa é a maior prova da força do circo.

Em pouco tempo, o leitor passa a pensar que, ao invés de 34 anos, a encantadora de risos poderia ter 70, por conta do vasto currículo profissional.

Agora acrescente à esta artista a profissão mãe. Um anjo chamado Ciro, aos cinco dias de idade, já acompanhava a mãe durante o desfile de uma escola de samba, da qual a mãe foi coreógrafa.


Palhaçada e Helenismo -  No teatro grego, durante o período helenístico (32 a.c.3 a 146 a.c.), surge a Comédia Nova, em que críticas eram feitas aos bons costumes da sociedade. Se fizermos uma comparação aos dias de hoje, as análises são tão atuais que parecem brincadeira.

O palhaço e o circo estão presentes em diversas artes. Da literatura à TV, do rádio ao teatro, das ruas à internet. Após breve análise, nos deparamos com uma figura tão próxima a nós, que somos levados a assumir, no íntimo, que muitas vezes nos sentimos um deles.

“Eu continuo a ser uma coisa só: um palhaço, o que me coloca em nível mais elevado do que o de qualquer político”. (Charles Chaplin)

Para Helena, o palhaço tem a obrigação de dizer o que ninguém tem coragem de falar. “É um ser que ri de seus próprios defeitos e erros, e por isso muitos se identificam com ele”.
A veia crítica e o humor inteligente dão aos detentores do nariz vermelho a missão de falar quando todos calam, de mostrar quando todos os olhos se desviam, de ser quando todos tentam se mascarar. 

A arte da palhaçada é a arte da verdade. A pintura facial não esconde um rosto. Na verdade, revela mais do que um rosto limpo. Helenas, Eduardos, Victors, Carequinhas e Arrelias, são nossos espelhos vivos.        

“A única obrigação e função do palhaço é divertir” (Helena Figueira)

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