Por Joyce Salles Barreto
O teatro amador é o palco para os apaixonados pela arte que não esperam recompensas financeiras. Apesar da falta de incentivo, alguns grupos de dedicados artistas, ainda resistem.
O teatro amador é o palco para os apaixonados pela arte que não esperam recompensas financeiras. Apesar da falta de incentivo, alguns grupos de dedicados artistas, ainda resistem.
Eles são advogados, médicos, dentistas, balconistas, psicólogos, seguranças, engenheiros, jornalistas... e todos têm algo muito forte em comum: a paixão pela arte de atuar, ainda que não seja como profissionais.
Talvez pelo amor incondicional pelo teatro, recebam o nome de artistas “amadores”.
Para mergulharem ainda mais nessa paixão, alguns dedicam-se a cursos e ganham experiência. Outros vão além, e se tornam profissionais.
Mas o ator de teatro amador costuma atuar por hobby, na maioria das vezes sem receber cachê. Em muitos casos, os próprios atores bancam o espetáculo.
Recebi a missão de caçar companhias de teatro amador em Santos. Internet? Anúncios de jornais? Listas telefônicas? Nada! Nestas fontes, pouco se encontra a respeito.
Descobri que, infelizmente, os grupos estão se extinguindo devido às dificuldades que os artistas encontram em manter as produções.
Resolvi, então, procurar festivais de teatro que recebem inscrições de grupos amadores. Foi assim, finalmente, que achei o Festival de Teatro Amador (FESTA), que deveriam ter algum registro.
Cheguei até Leandro Taveira, coordenador do Festival, que me recebeu no “Quintal da Pagu” antiga “Cadeia Velha”, espaço onde grupos de teatro e circo ensaiam seus espetáculos. Baners dos festivais anteriores enchiam as paredes da sala, na qual rolou nosso papo. Leandro, além de fornecer os contatos de alguns grupos, ainda contou sobre como FESTA vem esse ano.
Ele relembrou os tempos em que o “Quintal da Pagu” era movimentado por atores maquiados entrando e saindo pela enorme porta de madeira. Das antigas selas, sempre lotadas, vários grupos faziam seu palco e inúmeras fantasias enfeitavam as paredes brancas daquele lugar, que um dia foi um ambiente de aflição e tristeza.
“Hoje ainda se podem ver grupos, atores e até fantasias, mas não como antigamente”, lamenta Leandro.
Após ouvir essa declaração, sabia que a coisa não ia ser fácil.
Agora, eu tinha uma lista enorme nas mãos. Comecei a fazer os contatos. Logo de cara, um deles, deixou bem claro:
“Olha, eu não sou amador, eu sou PRO-FIS-SI-O-NAL!”
Resolvi mudar de tática. E através do professor de artes do curso de Produção Multimídia da Unisanta, Gilson de Melo, comecei a perceber porque eu estava tendo problemas.
“O termo ‘amador’ já está batido, por isso a dificuldade de encontrá-lo. Hoje, esses grupos se profissionalizaram ou fizeram algum curso. Por este motivo, não gostam de ser mais chamados de amadores. Porém, há aqueles atores que mesmo formados ainda fazem trabalhos amadores, seja atuando ou dirigindo algum grupo. Obviamente, não recebem cachê pelo espetáculo feito. É a arte pela arte”, explicou Gilson.
O instrutor de artes da Secretaria de Cultura de Santos – Secult, Ricardo Menezes se interessou pelo teatro em 1990, na escola onde estudava. Lá, os alunos tiveram contato com o Projeto Carlitos, no qual atores de teatro amador iam às escolas e elaboravam oficinas de cenografia, atuação etc.
Ricardo se profissionalizou, mas o teatro amador ainda faz parte da sua vida. Ele dirige há 10 anos o “Arte Supernova”, grupo que tem na bagagem 14 peças e diversos prêmios.
Sua atual peça, “Para um amor de Vinicius”, é um tributo ao poeta Vinicius de Moraes. O enredo consiste em uma seleção de cenas que retratam o cotidiano de casais apaixonados, embalados por canções do autor.
Menezes conta que manter um grupo amador não é fácil:
“O grupo fica muito vulnerável à saída dos componentes que, por terem compromissos com o trabalho e com a casa, acabam tendo dificuldades em fazer espetáculos fora da cidade e por um longo tempo. É uma pena esse teatro estar acabando por preconceito da sociedade que desmerece o amador alegando falta de qualidade. As pessoas procuram como referência atores globais que estão na mídia, em detrimento dos que estão nascendo na sua própria região”, desabafa.
Egbert Mesquita, diretor do grupo Cia Kabuk, também é formado e concorda com a visão de Ricardo.
Ele começou no teatro em 1984, mas foi em 1987, com a ajuda de três amigos que fundou a Cia Kabuk de teatro com o espetáculo "Lagrimas de Cristal". Em 1996, após estudar Artes Cênicas em São Paulo e no Rio de Janeiro, Ricardo voltou a Santos e retomou o Kabuk, que deu origem a mais dois outros grupos, direcionado a faixas etárias específicas (crianças e adolescentes).
Atualmente em cartaz com o grupo adolescente “Fúrias de Teatro” no espetáculo infantil "A Bruxinha Cor de Rosa", Mesquita ainda vê o teatro amador como uma grande família, onde todos se ajudam.
“As tarefas são realizadas com o empenho dos componentes do grupo. As despesas geralmente são bancadas de forma que arrecademos algum dinheiro para cobri-las. Não temos patrocinadores e nem apoiadores financeiros, mas temos muitos parceiros que colaboram com o que podem”, afirma.
FESTA
Criado em 1958, o FESTA é o festival de teatro em atividade mais antigo do País. Sua criação começou com Patrícia Galvão, a Pagu, com apoio do teatrólogo Paschoal Carlos Magno e do dramaturgo Plínio Marcos.
Desde 2009, o Festival de Teatro Amador (FESTA) deixou de ter apenas grupos amadores e passou a incluir produções profissionais em sua programação, transformando-se no Festival Santista de Teatro.
Nos mais de 50 anos de festival, já passaram por seu palco talentos como os irmãos Cláudio e Sérgio Mamberti, Greghi Filho, Tanah Corrêa, Jandira Martins, Ney Latorraca, Bete Mendes, Carlos Soffredini, entre outros.
Neste ano, com o tema “Respeitável publico” o 53º FESTA será realizado entre os dias 15 a 23 de abril.
Além de Santos, os trabalhos também serão apresentados outras cidades da Baixada, como São Vicente, Guarujá, Cubatão, entre outras.
O coordenador geral Leandro Taveira explica que o tema foi escolhido propositalmente para seguir a idéia de trazer de volta o público ao teatro, “Este ano estamos com a proposta “pague quanto quiser”, os ingressos serão cobrados de R$2,00 à R$8,00”, explica.
Leandro conta que neste ano o número de inscrições foi recorde: ao todo, 368 trabalhos inscritos de todo Brasil. “Tivemos inscrições de grupos de diversos estados, como Amazonas, Pernambuco, Santa Catarina e muitos outros”.
A secretária do evento, Sarah Antunes, conta como foi a seleção dos candidatos. “Encaminhamos as fichas técnicas e os DVDs para os jurados em cada categoria. Na categoria Rua, Lindolfo Amaral, de Sergipe; no infantil, Simone Grande, de São Paulo e no adulto, Imara Reis, do Rio de Janeiro. Escolhemos jurados de fora da região para evitar qualquer influência nossa”, diz.
Este ano, o FESTA virá com oficinas no “Quintal da Pagu” e oferecerá aos grupos que permanecerem na cidade durante o festival, estadia e comida.
O FESTA é uma realização da Comissão FESTA, com patrocínio do Governo do Estado de São Paulo (Secretaria de Cultura), por meio do Programa de Ação Cultural (ProAC), e parceria com Prefeitura de Santos, Sesc-Santos, Associação dos Artistas, e Santos e Região Convention & Visitors Bureau.
Confira abaixo as mostras que já estão inscritas no festival!
Mostra de Teatro de Rua
“Palhaços à Vista” – Cia Circunstância Circo Teatro – Belo Horizonte (MG)
”Contos de Lua no Chão” – Grupo do Trecho – São Paulo (SP)
“Cidade das Donzelas” – Troupp Pas D’Argent” – Rio de Janeiro (RJ)
“Circo Godot” – Cia Circo Godot – Recife (PE)
“O Último Suspiro” – Gaia’thos Cia Circense – Santos (SP)
Mostra de Teatro Infantil
“Sobrevoar” – Cia do Abração – Curitiba (PR)
“Casos Cascudos” – Cia da Tribo – São Paulo (SP)
“Chapeuzinho Vermelho” – Cia Le Plat Du Jour – São Paulo (SP)
“Magia da Lua” – Coisas de Teatro Cia de Arte – Santos (SP)
“O Marajá Sonhador e Outras Histórias” – Os Buriti – Brasília (DF)
Mostra de Teatro Adulto
“Strangenos” – Teatro Labirinto – São Paulo (SP)
“Deolinda e Genoveva” – Cia Lúdica – São Paulo (SP)
“E Agora, Nora?” – Cia Temporária de Investigação Cênica – São Paulo
“Olhos de Fazer Morder” – Teatro Experimental de Pesquisas (TEP/Unisanta) – Santos (SP)
“Encontro de Dois” – Quase9 Teatro – São Paulo (SP)
“Kd Eu?” – Cia Dramática de Teatro – São Paulo (SP)
“Pai e Filho” – Pequena Cia de Teatro – São Luís (MA)
“O Caderno da Morte” – Cia Zero Zero – São Paulo (SP)
“O Homem que Queria Ser Rita Cadillac” – Grupo de Teatro Presta Atenção – São Paulo (SP)
“O Homem que Queria Ser Rita Cadillac” – Grupo de Teatro Presta Atenção – São Paulo (SP)


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