Por Felipe dos Santos
Afinado e sem perder o ritmo, o Coral Municipal Zanzalá de Cubatão, encanta a todos apresentando um repertório diversificado. Da música erudita até o gênero popular o grupo vem se destacando no cenário musical.
Afinado e sem perder o ritmo, o Coral Municipal Zanzalá de Cubatão, encanta a todos apresentando um repertório diversificado. Da música erudita até o gênero popular o grupo vem se destacando no cenário musical.
Abrem-se as cortinas! Senhoras e senhores desliguem os celulares, porque agora queremos convidar ao palco, o Coral Municipal Zanzalá. As luzes ficam mais fortes, o som das palmas mais estridentes. Homens e mulheres de preto caminham para suas posições.
Depois de alguns minutos e, em harmonia com a iluminação, as palmas vão diminuindo, até sumirem. Apesar disso, o desfile continua: são 60 cantores para inundar o local de cânticos com melodias e acordes típicos do som celestial.
Esse ritual é comum para os componentes e equipe técnica, porém impressiona e assusta o público, pois as expressões fechadas, dos seus componentes, lembram, o coral Rundfunkchor Berlin, ganhador do 53º Grammy-Awards, em Los Angeles, na categoria “Música Clássica, pela gravação da ópera “L’Amour de Loin.
As luzes, mesmo tímidas, contrastam com o preto dos ternos e blazeres dos cantores que, no decorrer do espetáculo, dão lugar a cores vivas. Azul, verde e branco compõem uma sintonia agradabilíssima que, em consonância com as palmas do público, ditam o ritmo das apresentações, o que não é comum em apresentações desta natureza.
Ao longo das apresentações, o coral Zanzalá expõe sua característica principal: a simpatia. Embora seja um coral sério e de repertório refinado e variado, consegue interpretar, desde peças mais elaboradas, como Aleluia de Handel, até as mais simples.
Quando o Zanzalá se apresenta é fácil perceber suas peculiaridades. Simpatia, jovialidade e alegria, são alguns dos ingredientes que dão um tom diferenciado ao coral.
Toda essa miscelânea de luzes, sons, cores, vozes de homens e mulheres, cenário e aplausos, compõem uma harmonia incomum, um som que vem do coração, inundando o palco e platéia como uma tsunami avassaladora.
Toda essa miscelânea de luzes, sons, cores, vozes de homens e mulheres, cenário e aplausos, compõem uma harmonia incomum, um som que vem do coração, inundando o palco e platéia como uma tsunami avassaladora.
O coração do Zanzalá tem nome: Fernanda Tavares
Quando se relata a história do coral Zanzalá, é impossível não destacar Fernanda Tavares, que possui sua vida ligada ao coro. A regente faz parte do coral desde 1993, porém neste período, Fernanda cantava como contralto do grupo.
Quando se relata a história do coral Zanzalá, é impossível não destacar Fernanda Tavares, que possui sua vida ligada ao coro. A regente faz parte do coral desde 1993, porém neste período, Fernanda cantava como contralto do grupo.
Fernanda Tavares foi casada com o maestro e fundador do coral Zanzalá Rodrigo Augusto Tavares. Além de cantar no coral, ela era regente do grupo Renascista (outro grupo sustentado pela Prefeitura de Cubatão).
A história de vida de Fernanda é completamente ligada também com a música. Mãe de quatro filhos, Nanda, como é conhecida, sempre conciliou suas atividades de dona de casa, musicista e professora de música no Colégio Estela Maris em Santos.
Após a morte do marido e Maestro Rodrigo Augusto, Fernanda foi indicada para assumir a regência do Zanzalá. Porém, o convite foi recusado, já que o falecimento do companheiro a deixou abalada. Ela indicou o músico Geraldo Marques (que oficializou o coral em 1993) que, a partir daí, assumiu a frente do grupo.
Com o passar do tempo, Fernanda, casou-se com Geraldo Marques. Mais tarde, seus filhos Felipe Tavares e Juliana Tavares também músicos passaram a fazer parte do coral. Seu filho Felipe, hoje é o chefe dos baixos (o tom masculino mais grave) do coro.
A união com Fernanda não deu certo e Geraldo deixou a direção do Zanzalá. Com isso, Nailse Machado (hoje exercendo o cargo de assistente de regência do coro), assumiu o posto de regente.
Após a saída de Nailse, Fernanda Tavares assumiu a regência do coral Zanzalá. E já completa aproximadamente oito anos no posto. Apesar da responsabilidade, Fernanda não acha que sua ligação com o Zanzalá a sobrecarrega.
“Na verdade o coral Zanzalá e o Renascita me serviram de motivação. Ambos me deram forças para continuar” – afirma a regente.
Fernanda demonstra muita satisfação quando fala dos companheiros de trabalho no grupo. Ela exalta a parceria com a sua assistente Nailse Machado: “o sucesso do coral se atribui também à parceria com a Nana. Nossa união é constituída de companheirismo, sinceridade, cumplicidade, respeito e amizade” – ressalta.
A regente fala, ainda, da satisfação de pessoas que deixaram o grupo, para realizar seus respectivos sonhos: “é muito legal quando as pessoas nos deixam para realização de seus projetos pessoais. Um exemplo é a Márcia, que nos deixou para cantar ópera, que sempre foi o sonho dela” – afirma.
Para a Nanda, no coral há diversidade de talentos. Ao todo, o coral possui pessoas com muito potencial. Por isso, o sucesso do grupo. “Todos são importantes, inclusive os que não fazem mais parte do coro. Tenho saudade dos que não estão mais conosco” – diz Fernanda.
Neste momento, a regente se emociona, pois se lembra de um querido integrante do coro: o tenor Edvaldo, que cantou durante muitos anos no grupo e hoje passa por sérios problemas de saúde que o distanciaram do Zanzalá.
O coral possui um termômetro, um coração que pulsa e dita o ritmo. Se a regente não estiver bem, é provável que o desempenho do coro não seja o mesmo. Mas, se ela está firme, o coral alcança seu potencial máximo.
Definitivamente, Fernanda Tavares é o coração deste corpo artístico.
Coral Zanzalá: uma história de sucesso
O Coral Zanzalá foi idealizado pelo maestro, Rodrigo Augusto Tavares, em 1978, tendo como principal objetivo a formação de um coro composto por alunos do Conservatório de Cubatão. Porém, o trabalho se expandiu e, em 1993, o coral foi oficializado, sob a regência de Geraldo Marques.
A partir dos anos 90, apenas músicos profissionais foram incorporados ao grupo. Entretanto, deste período em diante, somente as pessoas aprovadas em processo seletivo realizado pela bancada dos chefes de “naipe” e da regente do coral podem fazer parte do grupo. Atualmente, cada músico recebe uma ajuda de custo no valor de R$ 600,00.
É comum encontrarmos pessoas do próprio coral Zanzalá, que sobrevivem apenas da música. Este é o caso de Abner de Souza Santana, 20 anos que reside em Cubatão e está cursando música na Universidade de São Paulo - USP.
Abner precisou passar por duas avaliações para ingressar no coro. O jovem promissor prestou o concurso do Zanzalá e, após o anúncio do resultado, teve seu direito de exercer a função negada. A acusação era de que o teste não era legitimo, já que o pai e o tio de Abner faziam parte do coral.
Mas o músico talentoso não desistiu - passou por outro teste, dessa vez na presença de especialistas de outros grupos artísticos da cidade. O resultado foi o mesmo: o direito de exercer a função de coralista do Zanzalá.
Há três anos o músico faz parte do grupo e, além de cantar, toca um instrumento chamado fagote. O jovem músico de 20 anos percorre um caminho que o levará provavelmente a uma carreira de muitas realizações, provando a quem considera coral uma “coisa de velho” que está totalmente fora de sintonia.
Para Abner, o excesso de concertos em datas comemorativas, atrapalha um pouco sua rotina. “Mas acredito que por meio do profissionalismo, seriedade e capacidade do coral, podemos alcançar algo muito maior” – revela.
Outro exemplo de talento, é o da musicista Maria Vitória, componente do coral desde sua fundação, em 1993. Além de cantar no grupo, ela é professora de Música.
Para Maria Vitória, no Brasil, em termos culturais, é muito difícil sobreviver apenas de música. É preciso enfrentar o preconceito. Quando Maria Vitória resolveu estudar piano, sua tia achou que ela morreria de fome. Mas, pelo contrário, ela ficou mais forte.
Maria Vitória hoje exerce muitas funções na área musical. Trabalha e vive da música, pela qual afirma ser apaixonada tanto quanto pelo trabalho executado no coral Zanzalá.
“Hoje, trabalho com formação de crianças e professores na área da educação musical. Acredito que a arte tem caminhos diferentes e o jovem pode viver da música. Porém ele precisa se dedicar, estudar muito e acreditar” – ressalta a musicista.
A cantora evidenciou a emoção que o coral consegue transmitir para o público durante suas apresentações. “Se eu pudesse resumir em uma só palavra o coral Zanzalá, ela seria ‘vida’”, emociona-se, Maria Vitória.
No entanto, os que não vivem somente da música têm a possibilidade de dividir as atividades do coro com outras funções. São várias histórias e diversas experiências dentro do coral. O Zanzalá possui pessoas exercendo funções muito distantes da música: desde motorista de caminhão de lixo até policial ou sargento da Marinha.
O coral hoje não tem uma sede própria, o grupo se prepara no Conservatório Municipal de Cubatão, que cede gentilmente o espaço para os ensaios do coro.
Apesar de o Zanzalá ser um coral desta magnitude, com tantas histórias, diversidades, conquistas e conhecido em boa parte do país, ele não tem sede própria. É isso mesmo! O coral não faz parte do Conservatório Municipal.
Esse é um dilema bem antigo. Mas, o coral Zanzalá se mantém firme em seus objetivos, alcançando sucesso e destaque. A “Ópera do malandro”, interpretada pelo coro, recebeu elogios até do seu autor, Chico Buarque.
É cantando e vencendo obstáculos que o coral Zanzalá tenta afinar seu destino de sucesso, mantendo-se firme rumo ao reconhecimento nacional e, quem sabe, internacional.


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