segunda-feira, 11 de abril de 2011

Que banda você toca?

Por Larissa Pimentel

As bandas de garagem divulgam seu som em busca do reconhecimento, e em nome do amor à música. Quem entra nessa, precisa ser perseverante, dedicado e não ter medo do trabalho: suor, som e talento, sem dúvida são elementos essenciais para quem viver esse sonho.

Sucesso, fama, prestígio... ouvir milhares de fãs indo ao delírio, cantando, em coro, uma música do repertório. Esse é o desejo de centenas de bandas que correm atrás da oportunidade de viver da música.

Santos é um celeiro de “bandas de garagem”. Todas desejam trilhar o caminho de glória, já desbravado por muitos músicos santistas que conseguiram reconhecimento entre o público da região - como é o caso da banda “General Tequila” - ou mesmo de todo Brasil, como fizeram os rapazes da “Charlie Brown Jr”.


A “Analisando Sara” é uma dessas bandas santistas que correm atrás do sucesso. Os músicos estão na estrada desde meados de 2006. Com um estilo que eles mesmos classificam como experimental, atraem muitos admiradores.

O vocalista Gilberto Júnior e o baixista Henrique Santana, acreditam que, para vencer na música hoje em dia, infelizmente, é preciso ter dinheiro para custear as condições impostas por este universo.

Gilberto, que já foi barman do Studio G, diz que nessa área também vale aquela história do ter “quem indique” e, mesmo que a banda possua talento, muitas vezes ele não é suficiente.

Além disso, para os integrantes da “Analisando Sara”, o Brasil ainda tem dificuldade de apreciar os artistas que fogem de um padrão mais voltado para o mercado. ”Brasileiro tem preconceito com a arte em si”, diz o baixista da banda.

Contudo, eles procuram não taxar negativamente as bandas que possuem estilos diferentes do seu, mesmo aquelas que têm forte apelo comercial, como é o caso da Restart. “Pelos menos agora o povo não olha com cara feia quem usa calça jeans justa”, brinca Gilberto, sorridente.

Henrique, que além de músico é projetista de cinema, também acha que todos os artistas podem contribuir com a cultura. Discorda daqueles que depreciam o talento de artistas como o cantor teen Justin Bieber, que trabalham para atingir um público mais abrangente. “No seu filme, vimos que o menino, desde pequeno, tocava violão nas ruas para mostrar seu talento. Aqui, ninguém valorizaria um artista como esse, pelo contrário, se ele fosse brasileiro provavelmente seria menosprezado”, diz.

Os músicos, que afirmam tocar por paixão, revelam que já dedicaram muito tempo à banda e não pretendem interromper o sonho. Querem, sim, viver da música e ter fama. Em suas músicas, buscam mostrar a realidade de experiências vividas por eles e pela sociedade. “Gostamos de criar coisas novas que possam acrescentar, e não fazer o que já existe”, alega Henrique.


O grupo ganhou o prêmio de “melhor banda underground”, em concurso realizado na internet. Mas, mesmo depois do reconhecimento do trabalho pelo público virtual, eles não se deslumbram e tentam melhorar cada vez mais.

Apesar de poderem desfrutar dos inúmeros benefícios das redes sociais, principalmente no que se refere à divulgação, os músicos acreditam que se sentiriam ainda mais realizados se todo o sucesso que já alcançaram no mundo virtual se repetisse na vida real. E, para isso, sabem que ainda precisarão ralar muito.

Eles iniciaram a gravação de seu terceiro EP (seqüência de gravações mais longa que um single e mais curta que um álbum) no início desse ano, e se mostram empolgados com o novo trabalho. Também gravaram um videoclipe, que ainda não foi lançado. “Passamos a noite do ano novo pensando e bolando coisas para esse disco”, contam.

Um dos grandes estímulos para que dêem continuidade ao trabalho, é saber que as músicas que compõem, de alguma maneira, ajudam ou inspiram seus fãs. “Quando recebemos algum elogio às letras e às músicas que compomos, ficamos imensamente felizes. Acho que esse é o caminho da realização”, conclui Henrique.

   Versatilidade é a aposta dos espaços que acolhem Bandas de Garagem

Estúdio de gravação e ensaio de segunda à sexta-feira e espaço para shows durante o fim de semana. O Stúdio G, localizado na Carvalho de Mendonça, 80, em Santos, é o reduto das novas bandas da região. É lá que diversos músicos se apresentam para divulgar seu som e ter a oportunidade de despontar na carreira.

Nos finais de semana, a pequena casa abriga cerca de duzentas pessoas nos dias mais procurados. Tamanho suficiente para essas bandas começarem a conquistar seu espaço.

Um dos organizadores de shows no Studio G, Khayan Malantrucco, de 21 anos, era um aspirante a músico quando decidiu organizar apresentações na casa. Hoje um dos eventos que organiza, o festival RockStuff tem cinco anos de existência.

Khayan diz que nesse tempo muita coisa mudou. Principalmente o envolvimento das bandas com seus próprios shows. Ele explica que para cada banda se apresentar, precisa vender vinte e cinco ingressos. Esse dinheiro é para bancar aluguel do estabelecimento e as despesas necessárias com o show. Caso a banda consiga vender mais que vinte e cinco ingressos, o lucro é divido entre os músicos e o organizador do evento.

Contudo, Khayan diz que muitas bandas consideram difícil vender esse número de convites. Para ele, essas não estão empenhadas o suficiente para divulgar seu som e conquistar seu público. “Cada banda tem em média cinco integrantes, todo mundo tem cinco amigos que possa comprar um convite de um show”, afirma.

O jovem empreendedor acredita que muitos têm dificuldade para divulgar o próprio trabalho... e aí, sobra para ele a responsabilidade de noticiar o evento. Para isso, Khayan conta principalmente com as redes sociais. São elas que o ajudam a atrair o público para seus eventos.

De acordo com o organizador, ter a casa cheia é sempre importante porque ele aposta no evento antes mesmo que aconteça: tem que bancar os custos do evento e assinar os contratos de locação. “Quando uma banda dá para trás, eu tenho que me virar para não sair no prejuízo”.

Khayan lembra que certa vez uma das bandas não compareceu ao próprio show, e ele precisou substituí-la às pressas. Em casos como este, ele conta com as bandas coringas. “Essas bandas geralmente não precisam vender convite, já têm seu público e acabam, às vezes, compensando outras bandas”, diz.

Nada além do amor pela arte

Por Joyce Salles Barreto

O teatro amador é o palco para os apaixonados pela arte que não esperam recompensas financeiras. Apesar da falta de incentivo, alguns grupos de dedicados artistas, ainda resistem.

Eles são advogados, médicos, dentistas, balconistas, psicólogos, seguranças, engenheiros, jornalistas... e todos têm algo muito forte em comum: a paixão pela arte de atuar, ainda que não seja como profissionais.

Talvez pelo amor incondicional pelo teatro, recebam o nome de artistas “amadores”.

Para mergulharem ainda mais nessa paixão, alguns dedicam-se a cursos e ganham experiência. Outros vão além, e se tornam profissionais.

Mas o ator de teatro amador costuma atuar por hobby, na maioria das vezes sem receber cachê. Em muitos casos, os próprios atores bancam o espetáculo.

Recebi a missão de caçar companhias de teatro amador em Santos. Internet? Anúncios de jornais? Listas telefônicas? Nada! Nestas fontes, pouco se encontra a respeito.

Descobri que, infelizmente, os grupos estão se extinguindo devido às dificuldades que os artistas encontram em manter as produções.

Resolvi, então, procurar festivais de teatro que recebem inscrições de grupos amadores. Foi assim, finalmente, que achei o Festival de Teatro Amador (FESTA), que deveriam ter algum registro.

Cheguei até Leandro Taveira, coordenador do Festival, que me recebeu no “Quintal da Pagu” antiga “Cadeia Velha”, espaço onde grupos de teatro e circo ensaiam seus espetáculos. Baners dos festivais anteriores enchiam as paredes da sala, na qual rolou nosso papo. Leandro, além de fornecer os contatos de alguns grupos, ainda contou sobre como FESTA vem esse ano.

Ele relembrou os tempos em que o “Quintal da Pagu” era movimentado por atores maquiados entrando e saindo pela enorme porta de madeira. Das antigas selas, sempre lotadas, vários grupos faziam seu palco e inúmeras fantasias enfeitavam as paredes brancas daquele lugar, que um dia foi um ambiente de aflição e tristeza.

“Hoje ainda se podem ver grupos, atores e até fantasias, mas não como antigamente”, lamenta Leandro.

Após ouvir essa declaração, sabia que a coisa não ia ser fácil.

Agora, eu tinha uma lista enorme nas mãos. Comecei a fazer os contatos. Logo de cara, um deles, deixou bem claro:

“Olha, eu não sou amador, eu sou PRO-FIS-SI-O-NAL!”

Resolvi mudar de tática. E através do professor de artes do curso de Produção Multimídia da Unisanta, Gilson de Melo, comecei a perceber porque eu estava tendo problemas.

“O termo ‘amador’ já está batido, por isso a dificuldade de encontrá-lo. Hoje, esses grupos se profissionalizaram ou fizeram algum curso. Por este motivo, não gostam de ser mais chamados de amadores. Porém, há aqueles atores que mesmo formados ainda fazem trabalhos amadores, seja atuando ou dirigindo algum grupo. Obviamente, não recebem cachê pelo espetáculo feito. É a arte pela arte”, explicou Gilson.

O instrutor de artes da Secretaria de Cultura de Santos – Secult, Ricardo Menezes se interessou pelo teatro em 1990, na escola onde estudava. Lá, os alunos tiveram contato com o Projeto Carlitos, no qual atores de teatro amador iam às escolas e elaboravam oficinas de cenografia, atuação etc.

Ricardo se profissionalizou, mas o teatro amador ainda faz parte da sua vida.  Ele dirige há 10 anos o “Arte Supernova”, grupo que tem na bagagem 14 peças e diversos prêmios.


Sua atual peça, “Para um amor de Vinicius”, é um tributo ao poeta Vinicius de Moraes. O enredo consiste em uma seleção de cenas que retratam o cotidiano de casais apaixonados, embalados por canções do autor.

Menezes conta que manter um grupo amador não é fácil:

“O grupo fica muito vulnerável à saída dos componentes que, por terem compromissos com o trabalho e com a casa, acabam tendo dificuldades em fazer espetáculos fora da cidade e por um longo tempo. É uma pena esse teatro estar acabando por preconceito da sociedade que desmerece o amador alegando falta de qualidade. As pessoas procuram como referência atores globais que estão na mídia, em detrimento dos que estão nascendo na sua própria região”, desabafa.

Egbert Mesquita, diretor do grupo Cia Kabuk, também é formado e concorda com a visão de Ricardo.

Ele começou no teatro em 1984, mas foi em 1987, com a ajuda de três amigos que fundou a Cia Kabuk de teatro com o espetáculo "Lagrimas de Cristal". Em 1996, após estudar Artes Cênicas em São Paulo e no Rio de Janeiro, Ricardo voltou a Santos e retomou o Kabuk, que deu origem a mais dois outros grupos, direcionado a faixas etárias  específicas (crianças e adolescentes).


Atualmente em cartaz com o grupo adolescente “Fúrias de Teatro” no espetáculo infantil "A Bruxinha Cor de Rosa", Mesquita ainda vê o teatro amador como uma grande família, onde todos se ajudam.

“As tarefas são realizadas com o empenho dos componentes do grupo. As despesas geralmente são bancadas de forma que arrecademos algum dinheiro para cobri-las. Não temos patrocinadores e nem apoiadores financeiros, mas temos muitos parceiros que colaboram com o que podem”, afirma.

                 FESTA

Criado em 1958, o FESTA é o festival de teatro em atividade mais antigo do País. Sua criação começou com Patrícia Galvão, a Pagu, com apoio do teatrólogo Paschoal Carlos Magno e do dramaturgo Plínio Marcos.

Desde 2009, o Festival de Teatro Amador (FESTA) deixou de ter apenas grupos amadores e passou a incluir produções profissionais em sua programação, transformando-se no Festival Santista de Teatro.

Nos mais de 50 anos de festival, já passaram por seu palco talentos como os irmãos Cláudio e Sérgio Mamberti, Greghi Filho, Tanah Corrêa, Jandira Martins, Ney Latorraca, Bete Mendes, Carlos Soffredini, entre outros.

Neste ano, com o tema “Respeitável publico” o 53º FESTA será realizado entre os dias 15 a 23 de abril.

Além de Santos, os trabalhos também serão apresentados outras cidades da Baixada, como São Vicente, Guarujá, Cubatão, entre outras.

O coordenador geral Leandro Taveira explica que o tema foi escolhido propositalmente para seguir a idéia de trazer de volta o público ao teatro, “Este ano estamos com a proposta “pague quanto quiser”, os ingressos serão cobrados de R$2,00 à R$8,00”, explica.

Leandro conta que neste ano o número de inscrições foi recorde: ao todo, 368 trabalhos inscritos de todo Brasil. “Tivemos inscrições de grupos de diversos estados, como Amazonas, Pernambuco, Santa Catarina e muitos outros”.

A secretária do evento, Sarah Antunes, conta como foi a seleção dos candidatos. “Encaminhamos as fichas técnicas e os DVDs para os jurados em cada categoria. Na categoria Rua, Lindolfo Amaral, de Sergipe; no infantil, Simone Grande, de São Paulo e no adulto, Imara Reis, do Rio de Janeiro. Escolhemos jurados de fora da região para evitar qualquer influência nossa”, diz.

Este ano, o FESTA virá com oficinas no “Quintal da Pagu” e oferecerá aos grupos que permanecerem na cidade durante o festival, estadia e comida.

O FESTA é uma realização da Comissão FESTA, com patrocínio do Governo do Estado de São Paulo (Secretaria de Cultura), por meio do Programa de Ação Cultural (ProAC), e parceria com Prefeitura de Santos, Sesc-Santos, Associação dos Artistas, e Santos e Região Convention & Visitors Bureau.

Confira abaixo as mostras que já estão inscritas no festival!

   Mostra de Teatro de Rua

“Palhaços à Vista” – Cia Circunstância Circo Teatro – Belo Horizonte (MG)
”Contos de Lua no Chão” – Grupo do Trecho – São Paulo (SP)
“Cidade das Donzelas” – Troupp Pas D’Argent” – Rio de Janeiro (RJ)
“Circo Godot” – Cia Circo Godot – Recife (PE)
“O Último Suspiro” – Gaia’thos Cia Circense – Santos (SP)

   Mostra de Teatro Infantil

“Sobrevoar” – Cia do Abração – Curitiba (PR)
“Casos Cascudos” – Cia da Tribo – São Paulo (SP)
“Chapeuzinho Vermelho” – Cia Le Plat Du Jour – São Paulo (SP)
“Magia da Lua” – Coisas de Teatro Cia de Arte – Santos (SP)
“O Marajá Sonhador e Outras Histórias” – Os Buriti – Brasília (DF)

   Mostra de Teatro Adulto

“Strangenos” – Teatro Labirinto – São Paulo (SP)
“Deolinda e Genoveva” – Cia Lúdica – São Paulo (SP)
“E Agora, Nora?” – Cia Temporária de Investigação Cênica – São Paulo
“Olhos de Fazer Morder” – Teatro Experimental de Pesquisas (TEP/Unisanta) – Santos (SP)
“Encontro de Dois” – Quase9 Teatro – São Paulo (SP)
“Kd Eu?” – Cia Dramática de Teatro – São Paulo (SP)
“Pai e Filho” – Pequena Cia de Teatro – São Luís (MA)
“O Caderno da Morte” – Cia Zero Zero – São Paulo (SP)
“O Homem que Queria Ser Rita Cadillac” – Grupo de Teatro Presta Atenção – São Paulo (SP)

MISS – Memórias gravadas e expostas em um só lugar

Por Joanna Flora

O Museu da Imagem e do Som de Santos, localizado no Teatro Municipal, possui cerca de 16.000 arquivos, entre filmes e discos de vinil, que estão disponíveis para toda a população. O local permite aos visitantes uma viagem no tempo.

Provavelmente você nunca precisou revelar um filme de 36, 24 ou 12 poses. Mas, se você tivesse nascido há algumas décadas, certamente reconheceria as máquinas fotográficas abaixo. Caso você nunca tenha manuseado essa relíquia ainda existe uma chance para você conhecer um pouco mais sobre ela e outros aparelhos da mesma época: basta ir ao MISS, Museu da Imagem e do Som de Santos.




Trata-se de um pavimento térreo modesto, com paredes vermelhas, laranjas e amarelas. Quadros com cartazes de filmes antigos estão expostos em algumas dessas paredes. Dois bonecos do Vinicius de Moraes estão sentados em cadeiras no fundo do local. Um deles, inclusive, está “usando” fones de ouvido.

Ao entrar pelas portas de vidro do local, você fará uma viagem no tempo. O lugar tem a finalidade de preservar a memória dos meios de comunicação e a vida cultural da cidade através de recursos multimídia. Não são apenas máquinas fotográficas da época dos seus pais e avós: no acervo é possível encontrar televisões, máquinas de telex, filmadoras, gramofones e outros aparelhos dos quais certamente você nunca ouviu falar.

Audioteca - Para aqueles que querem conhecer um pouco mais sobre a cultura das décadas passadas, o museu disponibiliza cerca de 10.000 discos que podem ser escutados lá mesmo. “Os universitários de cursos ligados às artes (música, cinema e rádio) são os maiores frequentadores do MISS”, comenta Maria Antônia da Silva, chefe da seção do local.


Se você já ouviu seus pais ou avós comentando sobre os discos de vinil que mais gostavam e tem curiosidade de saber o tamanho, quanto pesavam ou como tocavam, sem dúvida esse é o melhor lugar.

Videoteca - Mas se o seu negócio é imagem, não tem problema. 5.982 vídeos (entre VHS e DVD) estão à sua disposição. Nesse caso, também é possível locar. Após um rápido cadastro, você pode levar até três unidades para casa, por dois dias, ao preço de R$ 1,80 cada uma.

Como hoje em dia quase não restam vídeos cassetes, o museu tem a intenção de desenvolver uma sala, onde será possível assistir aos vídeos que estejam nesse formato. No acervo, existem produções de diretores de diversas nacionalidades: franceses, ingleses, argentinos, gregos, indianos, italianos, entre outros.


Exibições de Filmes -  O museu conta com o auditório “Chico Botelho”. Nele, são exibidos filmes, que podem ou não serem seguidos de debate. No projeto “Cinema no MISS” ou “Sessão Retrô” você pode dar a sorte de encontrar em cartaz o filme que você sempre quis assistir, mas não podia, por estar em formato VHS.

O projeto Cinema no MISS tem a finalidade de mostrar o melhor do cinema nacional e internacional. Já o Sessão Retrô expõe, especialmente, clássicos do cinema mundial. Os filmes são escolhidos pelo coordenador do local, Nivio Mota, e a programação é publicada no Diário Oficial da cidade, e em panfletos distribuídos aos visitantes do museu.

Os adultos terão a sensação de voltar no tempo mesmo antes de começar o filme e os mais jovens terão a oportunidade de conhecer um pouco do passado de Santos. Isso porque os 75 lugares disponíveis no auditório são especiais. Os assentos chegaram ao museu em 2007 e são os mesmos do antigo Cine Indaiá que existiu na cidade até 2004. Eles foram doados pelos responsáveis pela construção que ocupou o local onde o cinema exibiu suas sessões por 44 anos.

Exposições -  Quem entra no museu não imagina, mas em meio ao salão no qual estão expostas máquinas, TVs e outras peças antigas, existe uma sala de exposições, um pouco escondida. Nela, é possível encontrar partes de grandes comemorações que acontecem na cidade. Já ocorreram mostras sobre carnaval, propaganda e de fotos. A divulgação é feita nas rádios locais.

Em 2009, ano da França no Brasil, ocorreram durante um mês exibições de filmes de diretores franceses e de óperas, também de produção francesa.

Nos 100 anos da Imigração Japonesa no Brasil (2008) não foi diferente. Durante no mês de junho foram feitas diversas homenagens no local.

Tributos a diretores também já aconteceram. Fique ligado, pois a qualquer hora pode acontecer mais alguma e você não pode perder!

Serviços Especiais - O local dispõe de um estúdio para gravações de áudio. A locação custa R$ 35,00 a hora.

Durante um período, o MISS possuía uma espaço no qual era possível fazer gravações de vinil para CD. “Essa atividade foi suspensa permanentemente por conta de ter sido considerada “pirataria” pela legislação”, explica Maria Antônia.

O museu realiza um processo de catalogação de fotos antigas da cidade de Santos, muitas da década de 60. Ao final desse processo, o visitante poderá ver as fotos da população e dos carnavais santistas da época.

Oficinas e cursos também acontecem no espaço do MISS. Ambos são divulgados no Diário Oficial de Santos ou por meio de panfletos que ficam nas portarias principal e do fundo, na Hemeroteca e no próprio museu.

Uma série de depoimentos já foi gravada no MISS ou recebida de empresas que fazem essas gravações e edições. Os convidados são pessoas ilustres da região que contam um pouco sobre a própria vida. Os depoimentos que foram gravados no MISS não podem ser locados, pois fazem parte do acervo interno do museu. Já os outros, fazem parte do processo de locação.

Roberto Peniche, Carlos Pinto (atual Secretário de Cultura de Santos) e Guga (Maestro da Orquestra Sinfônica de Santos) são algumas das celebridades que tiveram seus depoimentos gravados pelo próprio MISS.  Já os depoimentos de Plinio Marcos (escritor), Tanah Corrêa (ator e produtor de artes cênicas) e Edmur Mesquita (ex-deputado estadual) são alguns dos que foram doados.


Frequentadores - Adultos e idosos são os maiores frequentadores do local. “Nas sessões de cinema, a minoria são pessoas que estão sempre por aqui. Tem alguns visitantes que são bem assíduos”, explicou a chefe da seção do museu.

Mas, pelo menos uma vez por mês, o MISS recebe a visita de escolas públicas ou particulares. Crianças de 4 a 10 anos ficam fascinadas pelos objetos expostos.

Nossos avós e pais estão tendo a oportunidade de conhecer todas as tecnologias presentes em nossa geração. No entanto, nós só temos condições de saber um pouco mais sobre o passado com as histórias contadas por eles. Mas as palavras transformam-se em imagens que ficam distantes, só na nossa imaginação.

Visitar o MISS é uma excelente forma de transformar estas imagens em peças concretas e entender um pouco mais sobre o passado, quando a forma de transmitir informações era tão diferente.

Uma dica: o passeio será ainda mais proveitoso ao lado dos mais experientes.  Isto porque provavelmente você vai precisar da ajuda deles para entender a função de todos aqueles aparelhos.

Sem dúvida, uma oportunidade imperdível para conhecer o passado, tanto quanto seus pais e avós conhecem (ou tentam conhecer) o seu presente.

Doações - O MISS existe graças a doações. Quando foi criado, em 1996, as doações eram feitas por pessoas ligadas à prefeitura que conheciam o projeto. Hoje, o visitante encontra, ao lado de algumas peças, além de pequenas informações sobre elas, o nome de quem as doou. Como não há espaço para todas as doações, de tempos em tempos são feitos rodízios e as peças em exposição são trocadas por aquelas que estavam guardadas.

Para doar algum tipo de material com o perfil do MISS, basta entrar em contato através do telefone: 3226-8000 Ramal 8181. Os funcionários receberão a peça, farão a catalogação e pronto: mais um objeto para o acervo e mais conhecimento para quem o visita. Se for um volume de grande porte, existe a possibilidade de agendar um veículo para a coleta.

Reforma - Atualmente o MISS passa por uma reforma. Por este motivo, alguns dos projetos citados estão temporariamente suspensos.

Veja, abaixo, os horários das atividades do MISS.

O MISS fica na Avenida Pinheiro Machado, 48. O horário para visitação é segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.

Coro e cores despertam os sentidos no Coral Zanzalá

Por Felipe dos Santos

Afinado e sem perder o ritmo, o Coral Municipal Zanzalá de Cubatão, encanta a todos apresentando um repertório diversificado. Da música erudita até o gênero popular o grupo vem se destacando no cenário musical.

Abrem-se as cortinas! Senhoras e senhores desliguem os celulares, porque agora queremos convidar ao palco, o Coral Municipal Zanzalá. As luzes ficam mais fortes, o som das palmas mais estridentes. Homens e mulheres de preto caminham para suas posições.

Depois de alguns minutos e, em harmonia com a iluminação, as palmas vão diminuindo, até sumirem. Apesar disso, o desfile continua: são 60 cantores para inundar o local de cânticos com melodias e acordes típicos do som celestial.

Esse ritual é comum para os componentes e equipe técnica, porém impressiona e assusta o público, pois as expressões fechadas, dos seus componentes,  lembram, o coral Rundfunkchor Berlin, ganhador do 53º Grammy-Awards, em Los Angeles, na categoria “Música Clássica, pela gravação da ópera “L’Amour de Loin.

As luzes, mesmo tímidas, contrastam com o preto dos ternos e blazeres dos cantores que, no decorrer do espetáculo, dão lugar a cores vivas. Azul, verde e branco compõem uma sintonia agradabilíssima que, em consonância com as palmas do público, ditam o ritmo das apresentações, o que não é comum em apresentações desta natureza.

Ao longo das apresentações, o coral Zanzalá expõe sua característica principal: a simpatia. Embora seja um coral sério e de repertório refinado e variado, consegue interpretar, desde peças mais elaboradas, como Aleluia de Handel, até as mais simples.

Quando o Zanzalá se apresenta é fácil perceber suas peculiaridades. Simpatia, jovialidade e alegria, são alguns dos ingredientes que dão um tom diferenciado ao coral.

Toda essa miscelânea de luzes, sons, cores, vozes de homens e mulheres, cenário e aplausos, compõem uma harmonia incomum, um som que vem do coração, inundando o palco e platéia como uma tsunami avassaladora.

                 O coração do Zanzalá tem nome: Fernanda Tavares

Quando se relata a história do coral Zanzalá, é impossível não destacar Fernanda Tavares, que possui sua vida ligada ao coro. A regente faz parte do coral desde 1993, porém neste período, Fernanda cantava como contralto do grupo.

Fernanda Tavares foi casada com o maestro e fundador do coral Zanzalá Rodrigo Augusto Tavares. Além de cantar no coral, ela era regente do grupo Renascista (outro grupo sustentado pela Prefeitura de Cubatão).


A história de vida de Fernanda é completamente ligada também com a música. Mãe de quatro filhos, Nanda, como é conhecida, sempre conciliou suas atividades de dona de casa, musicista e professora de música no Colégio Estela Maris em Santos.

Após a morte do marido e Maestro Rodrigo Augusto, Fernanda foi indicada para assumir a regência do Zanzalá. Porém, o convite foi recusado, já que o falecimento do companheiro a deixou abalada. Ela indicou o músico Geraldo Marques (que oficializou o coral em 1993) que, a partir daí, assumiu a frente do grupo.

Com o passar do tempo, Fernanda, casou-se com Geraldo Marques. Mais tarde, seus filhos Felipe Tavares e Juliana Tavares também músicos passaram a fazer parte do coral. Seu filho Felipe, hoje é o chefe dos baixos (o tom masculino mais grave) do coro.

A união com Fernanda não deu certo e Geraldo deixou a direção do Zanzalá. Com isso, Nailse Machado (hoje exercendo o cargo de assistente de regência do coro), assumiu o posto de regente.

Após a saída de Nailse, Fernanda Tavares assumiu a regência do coral Zanzalá. E já completa aproximadamente oito anos no posto. Apesar da responsabilidade, Fernanda não acha que sua ligação com o Zanzalá a sobrecarrega.

“Na verdade o coral Zanzalá e o Renascita me serviram de motivação. Ambos me deram forças para continuar” – afirma a regente.

Fernanda demonstra muita satisfação quando fala dos companheiros de trabalho no grupo. Ela exalta a parceria com a sua assistente Nailse Machado: “o sucesso do coral se atribui também à parceria com a Nana. Nossa união é constituída de companheirismo, sinceridade, cumplicidade, respeito e amizade” – ressalta.

A regente fala, ainda, da satisfação de pessoas que deixaram o grupo, para realizar seus respectivos sonhos: “é muito legal quando as pessoas nos deixam para realização de seus projetos pessoais. Um exemplo é a Márcia, que nos deixou para cantar ópera, que sempre foi o sonho dela” – afirma.

Para a Nanda, no coral há diversidade de talentos. Ao todo, o coral possui pessoas com muito potencial. Por isso, o sucesso do grupo. “Todos são importantes, inclusive os que não fazem mais parte do coro. Tenho saudade dos que não estão mais conosco” – diz Fernanda.

Neste momento, a regente se emociona, pois se lembra de um querido integrante do coro: o tenor Edvaldo, que cantou durante muitos anos no grupo e hoje passa por sérios problemas de saúde que o distanciaram do Zanzalá.

O coral possui um termômetro, um coração que pulsa e dita o ritmo. Se a regente não estiver bem, é provável que o desempenho do coro não seja o mesmo. Mas, se ela está firme, o coral alcança seu potencial máximo.

Definitivamente, Fernanda Tavares é o coração deste corpo artístico.

                 Coral Zanzalá: uma história de sucesso


O Coral Zanzalá foi idealizado pelo maestro, Rodrigo Augusto Tavares, em 1978, tendo como principal objetivo a formação de um coro composto por alunos do Conservatório de Cubatão. Porém, o trabalho se expandiu e, em 1993, o coral foi oficializado, sob a regência de Geraldo Marques.

A partir dos anos 90, apenas músicos profissionais foram incorporados ao grupo. Entretanto, deste período em diante, somente as pessoas aprovadas em processo seletivo realizado pela bancada dos chefes de “naipe” e da regente do coral podem fazer parte do grupo. Atualmente, cada músico recebe uma ajuda de custo no valor de R$ 600,00.

É comum encontrarmos pessoas do próprio coral Zanzalá, que sobrevivem apenas da música. Este é o caso de Abner de Souza Santana, 20 anos que reside em Cubatão e está cursando música na Universidade de São Paulo - USP.

Abner precisou passar por duas avaliações para ingressar no coro. O jovem promissor prestou o concurso do Zanzalá e, após o anúncio do resultado, teve seu direito de exercer a função negada. A acusação era de que o teste não era legitimo, já que o pai e o tio de Abner faziam parte do coral.

Mas o músico talentoso não desistiu - passou por outro teste, dessa vez na presença de especialistas de outros grupos artísticos da cidade. O resultado foi o mesmo: o direito de exercer a função de coralista do Zanzalá.

Há três anos o músico faz parte do grupo e, além de cantar, toca um instrumento chamado fagote.  O jovem músico de 20 anos percorre um caminho que o levará provavelmente a uma carreira de muitas realizações, provando a quem considera coral uma “coisa de velho” que está totalmente fora de sintonia.

Para Abner, o excesso de concertos em datas comemorativas, atrapalha um pouco sua rotina. “Mas acredito que por meio do profissionalismo, seriedade e capacidade do coral, podemos alcançar algo muito maior” – revela.

Outro exemplo de talento, é o da musicista Maria Vitória, componente do coral desde sua fundação, em 1993. Além de cantar no grupo, ela é professora de Música.

Para Maria Vitória, no Brasil, em termos culturais, é muito difícil sobreviver apenas de música. É preciso enfrentar o preconceito.  Quando Maria Vitória resolveu estudar piano, sua tia achou que ela morreria de fome. Mas, pelo contrário, ela ficou mais forte.

Maria Vitória hoje exerce muitas funções na área musical. Trabalha e vive da música, pela qual afirma ser apaixonada tanto quanto pelo trabalho executado no coral Zanzalá.

“Hoje, trabalho com formação de crianças e professores na área da educação musical. Acredito que a arte tem caminhos diferentes e o jovem pode viver da música. Porém ele precisa se dedicar, estudar muito e acreditar” – ressalta a musicista.

A cantora evidenciou a emoção que o coral consegue transmitir para o público durante suas apresentações. “Se eu pudesse resumir em uma só palavra o coral Zanzalá, ela seria ‘vida’”, emociona-se, Maria Vitória.

No entanto, os que não vivem somente da música têm a possibilidade de dividir as atividades do coro com outras funções. São várias histórias e diversas experiências dentro do coral. O Zanzalá possui pessoas exercendo funções muito distantes da música: desde motorista de caminhão de lixo até policial ou sargento da Marinha.

O coral hoje não tem uma sede própria, o grupo se prepara no Conservatório Municipal de Cubatão, que cede gentilmente o espaço para os ensaios do coro.


Apesar de o Zanzalá ser um coral desta magnitude, com tantas histórias, diversidades, conquistas e conhecido em boa parte do país, ele não tem sede própria. É isso mesmo! O coral não faz parte do Conservatório Municipal.

Esse é um dilema bem antigo. Mas, o coral Zanzalá se mantém firme em seus objetivos, alcançando sucesso e destaque.  A “Ópera do malandro”, interpretada pelo coro, recebeu elogios até do seu autor, Chico Buarque.

É cantando e vencendo obstáculos que o coral Zanzalá tenta afinar seu destino de sucesso, mantendo-se firme rumo ao reconhecimento nacional e, quem sabe, internacional.

Do black power ao rap

Por Carlos Norberto de Souza

As histórias deste cantor e b-boy, indicado no VMB de 2001, na categoria Melhor Clipe de Rap, por "Carro Cinza". Um dos primeiros a usar animação num vídeo de rap, logo em seu 1º álbum solo. Não ganhou. Mas já era um dos melhores rappers da Baixada.

Espessas e cinzas nuvens preenchem o céu neste fim de tarde de sábado. Logo mais à noite elas derramarão a já esperada chuva tão comum nessa época do ano - que hora mais inconveniente de aparecer na casa dos outros para meter o nariz onde não fui chamado. Papel de repórter. Quase duas horas atrás, do lado de fora do alto portão de alumínio, desses que têm em cima umas pontas de lança antiladrão, escutei a voz de dona Rosângela - nem sabia que o nome dela era Rosângela:

- Quem é?

Identifiquei-me e disse que havia combinado de entrevistar o esposo dela. Eis a resposta:

- O Daniel não está! Acho que ele vai chegar lá pelas 5 horas (da tarde).

E no horário impreciso, revelado pela companheira do personagem principal dessa história, voltei. Desta vez, tive mais sorte, ao bater palmas, minha presença é pressentida por ela:

- Ele já vai!

E ele veio. O nome de batismo é Daniel Paixão, mas é conhecido no universo do hip hop como Criminal D, b-boy desde a adolescência e rapper há mais de 20 anos.

- Ô, doutor! – brinca, cerimonioso, ao me ver vestindo calça jeans, tênis e uma camiseta vinho, certamente fazendo uma comparação a nossa primeira conversa, em que eu usava apenas chinelo, bermuda e camiseta. 


Daniel, quer dizer, Criminal D (chamem-no como quiserem), acaba de ser arrancado de um cochilo iniciado após a volta do trabalho pesado na estiva, onde é encarregado, junto com os colegas, do embarque e desembarque de caminhões recheados de produtos. Mas, dona Rosângela é impiedosa. A casa passa neste momento por uma faxina completa e, por isso, nossa presença lá dentro não será tolerada. Por esse motivo, o dois blocos de concreto defronte à calçada tornam-se os assentos onde será feita a entrevista. Não é nenhum sofá do Jô, mas serve.  

Filhote da Zona Noroeste de Santos, de Maria Cecília de Oliveira Paixão e de Ademar da Paixão, há 42 anos, Daniel era uma criança cheia de energia (não sei se hiperativa, só um especialista poderia afirmar). Igual a qualquer garoto de dez anos, pelas ruas barrentas da ZN, como os moradores daqui chamam a região, empinava pipa e jogava bola. Mas o pequeno Criminal D tinha uma peculiaridade:

- Minha infância era trocar porrada com a molecada. Gostava muito de brigar na rua. Queria ser o dono do território, parecia um cachorro. Se alguém passasse pela minha rua, eu ia lá pegar.

Nessa época, a Areia Branca vivia a febre da Capoeira.  Daniel conta que o bairro era o “foco” do esporte, contagiava a todos.

- Bandeira, Lima, Carneirinho, Eli, Marinheiro, eram ‘os caras’ da Capoeira, de atitude. Capoeira fight, mesmo. Todo mundo tinha medo deles.

Um dia, ele foi visto por um grupo de pessoas vestidas de roupas brancas, carregando berimbau e outros instrumentos, plantando bananeira e fazendo outras “macaquices”. Era o pessoal do mestre Bandeira.  Logo perguntaram se ele não gostaria de aprender também “a arte marcial brasileira”, como muita gente gosta de denominar esse esporte, cujas raízes estão nos negros escravos vindos da África.

Mas a mãe dele, dona Maria Cecília, por causa do batuque e dos cânticos, não nutria muita simpatia por essa arte afro-brasileira: achava que era “macumba”, no sentido depreciativo da palavra. Não era o som dos instrumentos nem o canto os objetos do encanto de Daniel, mas sim o gingado e as acrobacias. No rap “Voltando a fita”, está retratado um pouco desse período.  Nessa época, por influência de Jorge, irmão três anos mais velho, ele já ouvia e dançava funk.  Não o funk carioca, mas o ritmo nascido nos guetos negros dos EUA.  Jorge ia à Elos, uma pequena casa, que existe até hoje, onde aconteciam bailes regados a funk e soul music. Aqui, estamos no final dos anos 70.


- Eu via os caras dançarem de black power, eu ficava maluco, falava: É isso que eu quero ser!, relembra Daniel. O black power (poder negro), como era chamado aquele cabelo volumoso, moda na época, simbolizava o orgulho de ser negro.

Jorge ensaiava em casa para ir dançar na Elos, ao som de James Brown, George Clinton, Funkadelie, e por aí vai. Não demorou para Daniel começar a dominar os passos e se destacar.  Ah, ele também aprendia observando os outros. Por falar em Elos:

- Eu era barrado. Teve uma vez que eu falsifiquei a carteirinha da escola para entrar na Elos. Só podia entrar com 15 anos, mas eu ia fazer 12. Quando eu vi a galera lá dançando funk, falei: Tô em casa!

Começou cedo a fazer apresentações de dança em um grupo de dez integrantes chamado Black Time Soul - o irmão dele era um dos membros. Por ser um grupo numeroso, foi dividido: a BTS de Santos e a BTS de São Vicente. Eles freqüentavam os bailes da Beira-Mar (em SV), do Raízes (Rua Bahia, no Gonzaga) e do Praia Clube (também em SV, que ainda existe). Havia ainda a Drops, que ficava na Vila Mathias, Centro de Santos. A lista não acaba por aqui. Onde existisse baile, a Black Time Soul estava lá para mostrar o que sabia. A fissura era tanta, que eles “penetravam” em festas de casas particulares para dançar, diziam ser amigos do dono. Transformavam-se na atração e, no final, o dono da festa os abraçava, oferecia Coca-cola e salgadinhos.

Em 1982, Toni Tornado fez um show no Ginásio Poliesportivo do Dale Coutinho, reinaugurado como Conjunto Poliesportivo em 2008. Com a canção BR-3, Toni era a referência da black music da época, no Brasil. E, claro, não perderiam o show por nada nessa vida.
No começo da década de 80, começou, no Brasil, a transição da soul music para o hip hop e para o break. Enquanto alguns continuaram na black music, outros ‘pegaram o bonde’, cuja partida foi dada nos EUA, em direção ao hip hop. Aqui o pessoal ainda dançava o funk, mas lá fora o break já dominava, era uma continuação da cultura de rua. Criminal D percebeu isso por meio de um videoclipe:

“O grupo Chic, americano, tinha uma música que a gente dançava muito, mas nunca tinha visto uma imagem de clipe. Nós dançávamos só ouvindo a música. Mas em meados de 83, eu vi o cara fazendo um wave (um movimento ondulatório usando os braços) e falei que p... é essa!?! – a história do videoclipe era a de um menino que havia matado aula para dançar break na rua, e no final, a mãe do garoto corria atrás dele com a cinta na mão”, lembra.

Daniel só viu essa parte, não pôde gravar para ver outra vez, já que não possuía videocassete, mas tinha certeza de que havia mais coisa ali. Como não havia a opção de alguém ensiná-lo, ele se viu obrigado a inventar passos buscando inspiração pelos meios de que dispunha, principalmente, em filmes. Nas películas sobre mitologia grega, por exemplo, ele assimilava os movimentos de estátuas que se mexiam, dos seres míticos e, a partir daí, criava novos estilos. A mesma coisa fazia ao assistir a filmes de animais pré-históricos, reproduzia o jeito de andar de dinossauros e misturava os movimentos. Pinçando de tudo um pouco, ele produzia uma verdadeira miscelânea de criatividade. 

“Tudo que eu via e achava que dava pra transformar em dança, eu usava.”

Em meados da década de 80, o Brasil já era tomado pela febre do break, principalmente nas grandes metrópoles, como São Paulo. Assunto que chegou a ser abordado no Fantástico, em 84. A reportagem pode ser vista no YouTube, pesquisando-se a “A febre do ‘break’ – ‘Fantástico’, 1984”. As imagens mostram as ruas de Sampa tomadas por fãs do ritmo e da dança, durante um festival na Praça da Sé. Daniel estava no meio dessa multidão.


“São Paulo era o coração e uma das artérias trazia o break para Santos”, afirma.

Durante anos Daniel ia para SP toda semana, mas se dependesse exclusivamente da vontade dele, teria ido todos os dias. A galera dançava nas ruas. Há pessoas que ainda pensam que ele mora lá. Pelas curvas das ruas paulistanas, santistas e da vida, esbarrou com nomes hoje conhecidos da cultura hip hop como Mano Brown, Thaíde e Nelson Triunfo.

Além da praça da Sé, ele também dançou na rua 24 de maio, no Centro, onde também havia a Galeria do Rock, point da música black desde a década anterior. Não podemos esquecer a Estação São Bento do Metrô, templo do hip hop. Já existe um documentário intitulado "Nos Tempos da São Bento", de Guilherme Botelho, que retrata a importância da estação para a história do hip hop. Daniel é um dos personagens entrevistados.

Mas, segundo ele, por aqui o novo estilo de dança ainda tinha menos força, quase ninguém dançava break. Por essa razão:

“Eu caçava. Em todo lugar que eu sabia que tinha alguém que dançava, eu ia lá para ver qual era nível. Quando eu via que os caras estavam muito fracos, eu falava: não dá meu irmão! Porque o “classe a” (o ideal) era duelar, mas não tinha ninguém para isso.”

Em um lugar de São Paulo, onde ninguém o conhecia, todos pensaram que o paulista vindo da Baixada Santista era um b-boy importado da terra do Tio Sam. Um amigo deu a idéia: ele não falou, só dançou. No final as pessoas pediram autógrafos e o “americano do Paraguai” assinava “Daniel D”.

O já citado Thaíde, Daniel conheceu em 1985, no Programa Barros de Alencar, da TV Record. Neste ano, o grupo de break do qual fazia parte já se chamava Gangue de Rua. A primeira equipe dele (de 83) foi a The Masters Boys Breakers.

A década foi acabando, o Hip Hop ocupando novos espaços e o Daniel Paixão passando por nova transição na vida.

Aos 19 anos tornou-se pai, nascia Érick, agora com 23 anos. No ano seguinte, em 1989, trocaria alianças com Rosângela, cuja voz escutei logo no início desta reportagem, e ainda ecoava em meus ouvidos. Ah, já estava esquecendo de dizer também que Daniel ganhou a medalha de bronze nos Jogos Abertos do Interior de 87, em Santos, quando concorreu como boxeador. Porém, o boxe não era uma prioridade. A dança, essa sim, desfrutava de total zelo e dedicação. Ele costumava sair da concentração para ensaiar break.

Nessa época, as rimas estavam pipocando, prenunciando o que, nos anos 90, seria a explosão do rap no Brasil. Shows de grupos de rappers estrangeiros começaram a acontecer por aqui. Um dos que marcaram a vida do Daniel foi o show do conjunto norte-americano, Public Enemy, em 1991. Neste mesmo ano, a Zimbábue, uma equipe de música black de SP, que tinha um programa radiofônico, veio realizar um baile em Santos. Como perceberam que havia muita gente cantando rap, promoveram um concurso para escolher o melhor rapper da Baixada Santista. Criminal D ganhou. Existiam ainda outras equipes de som como a Chic Show, a Black Magic e a Circuit Power, todas com programas de rádio. Quem era do movimento hip hop, sintonizava nelas.

Antes da chegada da Internet, o pessoal “atualizava-se” por meio desses programas (diziam ter conexão direta com Nova Iorque), de revistas especializadas e de pessoas com maior poder econômico, que traziam as novidades do exterior. Além da TV, naturalmente, estas eram as fontes de informações sobre o hip hop no Mundo. São Paulo estava mais próxima das informações, por isso, todo mundo queria estar lá. “Uma revista trazida dos Estados Unidos era tudo pra nós”, recorda, Daniel.

Criminal D viu todas as metamorfoses do hip hop em nossa terra. Antes, cultura dos guetos. Hoje, apreciado por gente de todas as classes sociais. Isso é bom. Mas a maioria das baladas de black music existentes, pelo menos em Santos, são para públicos seletos, mais abastados economicamente. Criminal reclama que, por esse motivo, quem não pode pagar para entrar em lugares como, Bikini Barista e Coqueluche, é deixado de lado. O que vai totalmente de encontro à essência do hip hop. Ou seja, quem vive o break, o rap diariamente, perde espaço para outros que estão ali só para curtir uma balada, e nada mais.

Integrante da primeira geração do hip hop, atualmente ele, que deixou de ser Daniel D (em 89), pois “o nome não tinha aquela imponência” não tem mais tempo para se dedicar ao break. O novo nome artístico foi inspirado no disco Criminal Mind, de Burkdow Production. A família cresceu. Nasceu Daniele, hoje com 21 anos, e os gêmeos Denner e Deyver, de 10 anos.


Para sustentar o “clã”, ele foi cabeleireiro, guarda municipal, dava aulas de boxe e agora é estivador.

Mas, como Criminal D participou de coletâneas com outros rappers e artistas de estilos musicais diferentes. Em 2000, lançou seu primeiro CD solo junto com o videoclipe da música “Carro Cinza”. Este clipe foi indicado, no ano seguinte, ao Vídeo Music Brasil (premiação da MTV Brasil), na categoria Melhor Clipe de Rap. MV Bill ganhou o prêmio com o videoclipe “Soldado do Morro”.  Apesar de não ter levado o prêmio, Criminal gravou participação em um DVD do cantor Jair Rodrigues, já fez parceria com Pedro Mariano, filho de Elis Regina, e Rappin Hood.

Por falar nele: o grupo do Rappin Hood chamava-se “Posse e Mente Zulu”. E um dia, conta Daniel, eles foram cantar numa favela. A polícia chegou lá, fazendo o maior papelão, atrás do “tal Zulu, dono do pó e da semente”. Segundo Daniel, o Hood sempre conta esta história marcante da carreira dele. E são tantas histórias contadas por Criminal D, que fica difícil inseri-las numa só matéria.

Após um tempo sem fazer apresentações, Daniel quer retornar apenas quando lançar seu novo CD, lá pelo meio do ano. Será um disco com oito músicas. Há ainda o videoclipe da canção “Catraca 14”, que está em fase de gravação. Assim, Daniel, ou Criminal D segue vivendo o hip hop e cuidando de sua família.

                 Origem do Hip Hop

O Hip Hop originou-se dos bairros pobres e oprimidos socialmente de Nova Iorque. Afrika Bambaataa é reconhecido como o criador oficial do movimento e idealizador da junção dos seguintes elementos: o rap, o DJ, a breakdance e a escrita do grafite.

Habitados essencialmente por negros, hispânicos e membros de demais minorias étnicas, esses bairros eram verdadeiros guetos onde as taxas de criminalidade cresciam proporcionalmente ao desemprego. Neste contexto de exclusão social, as gangues encontraram o terreno ideal para se multiplicarem. Um delas, segundo o livro “Hip Hop – Cultura Marginal”, de Jessica Balbino e Anita Mota, era a Black Spades, “com uma proporção que permite a sua divisão em facções, partidos e sub-gangues, marcando o bairro com atos de vandalismo”. Isso em meados dos anos 60. Eram grupos compostos por jovens desses “guetos”, que reagiram à opressão social por meio de violência. Por tradição norte-americana, os grupos étnicos não se misturavam, por isso, existiam gangues de negros, hispânicos, asiáticos, etc. Confrontos armados eram freqüentes entre elas. Nos idos dos anos 70, os índices de criminalidade chegavam ao auge.

O jovem Bambaataa, cujo nome de batismo é Kevin Donovan, era um dos líderes de uma das facções da Black Spades “cansado das brigas, colecionador de discos e apaixonado por música”. E produtor de festas no Bronx, onde tocava seu som. “Estas festas vão aos poucos tomando o espaço das ruas, enquanto as gangues são esquecidas, dando lugar aos bailes, conhecidos como block parties, festas de quarteirão”, afirmam as autoras. Ou seja, os membros das gangues passaram a trocar as disputas violentas por território por duelos de dança. As gangues tornaram-se crews (equipes, turmas, grupos). “As crews mantiveram a postura de protesto das gangues, mas sem violência, levando ao mundo o refrão criado por Afrika Bambaataa: “peace, unity, love and having fun” - paz, união, amor e diversão.”

Foi com essa ideologia que Bambaataa fundou o Hip Hop: a troca da violência pela disputa artística.

                 Os pilares da cultura hip hop      

   Break

O breakdance, criado por porto-riquenhos para demonstrar insatisfação com a Guerra do Vietnã, foi inspirado em movimentos de artes marciais, como o Kung Fu. Esse estilo de dança se expandiu com as gangues nova-iorquinas, que demarcavam território deixando suas assinaturas (grafite) pelos muros da cidade. Porém, nos momentos de festa e descontração seus membros dançavam o break. Com o tempo, gangues de rua passaram a abandonar as brigas por disputas de dança.  O b-boy (breaker boy) é o dançarino de break. Esta expressão surgiu nas festas do Bronx (NY), nos anos 70, onde os b-boys dançavam ao som do funk de James Brown, George Clinton, entre outros artistas.

O break foi o primeiro elemento do Hip Hop a ser introduzido em nosso país. Nelson Triunfo, o Nelsão, foi o pioneiro e responsável pela difusão da cultura hip hop pelo Brasil.

   Lockin

O Lockin é a dança mais clássica do hip hop. Surgiu no início dos anos 70, em Los Angeles, Califórnia, criado por Don Campbell. Anos depois, Campbell formou o The Lockers, primeiro grupo profissional de street dance de que se tem notícia. Influenciado pelo funk, os passos são compostos por movimentos detalhados de braços, cotovelos, mãos, dedos. Existem poucos lockers por aí.
  
   Power Move

São giros, saltos, acrobacias e todos os demais movimentos corporais. Não é considerado um estilo de dança, mas o nome de um conjunto de movimentos de altos níveis de dificuldade, que acrescentam muito às habilidades de um b-boy.
  
   Poppin

Surgiu também na década de 70, numa cidade da Califórnia, chamada Fresno. Criado por Boogaloo Sam, idealizador do grupo Electric Boogaloo, o poppin é a evolução da robot (apenas a reprodução dos movimentos de um robô). Hoje, este estilo é muito mais complexo, tem efeitos ilusionistas, mímica, dança indiana e muitas influências.
  
   DJ

Um Disc Jockey, ou DJ (dí-djei) é quem utiliza técnicas de som para misturar músicas, usando suportes como vinil, CDs e efeitos sonoros digitais - a mixagem. Os DJs surgiram nos anos 50, mas só se consagraram três décadas depois, na era das discotecas. O primeiro DJ do mundo, Kool Herc, jamaicano de Kingston, criou os “sound systems”, aparelhos de mixagens de músicas. Existem também registros de que o DJ “Big Youth” já tocava na Jamaica, na década de 50.

O DJ é um elemento do Hip Hop fundamental para o Rap, que, sem ele, perderia o ritmo e o brilho. No Brasil, temos nomes de destaque como KL Jay (Racionais MCs), DJ King, DJ Negro Rico, DJ Primo, DJ Cia, DJ Hum, entre outros.

   Rap

Rythm and Poetry (RAP) significa “rítmo e poesia”.  Nos anos de 1960, no país de Bob Marley, em volta dos “souds systems”, os jamaicanos reuniam-se para ouvir um som de protesto, feitos pelos “Toaster”, espécies de MCs (os MCs eram os mestres de cerimônia, animavam as festas. Agora eles são as atrações principais). No começo dos anos 70, esse meio de expressão foi levado aos Estados Unidos, pelo DJ Kool Herc, junto com milhares de conterrâneos, que emigraram para a América, em busca de melhores condições de vida. Esse estilo teria dado origem ao rap. Não demorou para surgirem diversos grupos em todos os guetos de Nova Iorque.

No Brasil, o rap começou a se expandir nos anos 80, com MC’s pioneiros como Pepeu e Mike. Mas o auge do rap nacional só aconteceu a partir de meados dos anos 90, com grupos como o Racionais MCs.

   FreeStyle

É a rima improvisada. Há MCs que fazem rimas sobre qualquer assunto a qualquer hora. Os duelos são o que há de mais empolgante no Freestyle. Um nome importante da atualidade é o rapper Emicida.

                 Mais exemplos de gente que vive o Hip Hop

   O Engajado


André Cardoso da Rocha, 25 anos, é criador do site “DeRua” (http://derua.com.br/), cujo objetivo é promover e divulgar qualquer tipo de evento e ação sobre o movimento hip hop do Litoral Paulista.

Participou também da organização e criação do Coletivo Hip Hop Caiçara, em outubro de 2009, que articulou com o Poder Público e sociedade civil dos nove municípios da região a realização de encontros municipais e um Encontro Metropolitano, este realizado em janeiro de 2010, em Guarujá. O objetivo dos encontros foi discutir a realidade e futuro da cultura hip hop. Foi deliberada ainda a produção de um documentário para registrar a história do movimento na Baixada, em fase inicial de pesquisa, com a ajuda de estudantes universitários voluntários adeptos dessa “cultura de rua”, e, no futuro, a realização de um censo para saber quantos e quem são os integrantes do Hip Hop por aqui. Em breve será lançado o caderno com tudo o que foi debatido. Uma outra meta é ajudar o hip hop a sair da informalidade, envolvendo o Poder Público.

Ele é morador de São Vicente, onde participava de um grupo chamado Breakdance. Formado em Educação Física, na Universidade Santa Cecília (Santos/SP), também integra o Conselho Municipal da Juventude de sua cidade. O CMJ-SV atua em favor da autonomia e protagonismo social dos jovens.

   Um b.boy professor


Ele nasceu em São José dos Campos há 19 anos. Aos 12, veio para Santos com sua mãe, que havia se separado do esposo e pai de Douglas dos Anjos. “Eu achava que eles estavam brigadinhos. Mas tinham se separado. Fato!”. A mãe, segundo ele, não o deixava sair muito. Mas quando se mudou para a casa do pai, começou a frequentar “baladinhas black” com os amigos da escola. Estudava na escola “Cleóbulo Amazonas Duarte”, no Canal 3. Curtiu o que os b.boys dançavam. Na dança, o break foi sua primeira paixão. É, segundo Douglas, o “mais famoso”, o que chama mais atenção. Ele morava parte do tempo com a mãe, parte com o pai. Quando seu pai morreu, Douglas ficou perdido e até meio revoltado.

Era nas baladas que ele extravasava. “Não queria fazer mais nada, só queria ir pra balada”. Hoje, o jovem está encontrando seu caminho. Sua mãe descobriu o Centro da Juventude da Zona Noroeste, onde Douglas participou de um projeto de comunicação. Nesse período, fez ainda teatro e curso de produção audiovisual no Instituto Arte no Dique. Desde 2010, ensina Dança de Rua para crianças e adolescentes no Centro da Juventude.  Pode parecer clichê, mas suas aulas são brincadeiras muito sérias.

   “Na atividade”


 “Eu sou um cara tímido para c..., muito nervoso, genioso. Mas sou inteligente.”. Nessa hora eu brinco acrescentando “e modesto”. Michael considera-se uma pessoa cheia de defeitos “Até minhas qualidades são defeituosas”. Já o chamaram de metido, egoísta, mal-encarado, retardado. Ele confessa que é inseguro. Mas a sinceridade é muita, como podem ver. E prejudica-o. “Eu falo mesmo, na cara!” Seu pior defeito, na opinião dele mesmo, é a demora para agir. “Eu penso demais e, às vezes, não faço”.

Talvez a melhor qualidade de Michael (ele se diz prestativo e proativo), é o sonho que nutre. O sonho de ser um rapper reconhecido. Ele começou a curtir rap aos 9 anos, por causa do pai. Primeiro ouvia só rap estrangeiro. O cantor norte-americano Eminem foi inspiração. Depois só rap nacional. Aí misturou tudo. Mas foi de muito escutar rap brasileiro, de escutar as músicas cantadas em português, que Michael fez as primeiras rimas. No início, “bobas”, como ele mesmo diz. Mas ao tomar gosto pela coisa, ficou viciado em fazer letras. Caminhando pela casa, fazia rimas com os móveis e os eletrodomésticos que via. Coisa de maluco!

Em suas letras ele gosta de falar da realidade. Do que acontece nas esquinas escuras, nas ruas, na favela. Sem meias palavras. Os cadernos que guarda embaixo da cama, numa caixa de sapatos, estão cheios delas. Ele mesmo é um alvo de suas letras, cuspidas das entranhas. Ele é fã de Criminal D, de Histórias em quadrinhos e videogames. Lê de tudo: livro, dicionário, palavras cruzadas. Sherlock Holmes e a Bíblia são as melhores leituras para fazer rap, segundo Michael.  Sempre com um pedaço de papel para anotar as rimas que brotam da cabeça, ele anda por aí. Quem sabe ele chega lá. Sempre “na atividade”.

Informações do site “DeRua” e do livro “Hip Hop – Cultura Marginal”, de Jéssica Balbino e Anita Motta

quarta-feira, 6 de abril de 2011

"Um cinema a beira-mar?"

Por Bruna Dalmas

“Caramba! Um cinema na praia?” É assim que a maioria dos turistas reage quando descobrem a existência do Cine Arte Posto 4. Pelo menos é o que conta o coordenador Nivio Mota, em um bate-papo descontraído em seu escritório.

Surgido da idéia de intelectuais, o Cine Arte Posto 4 foi criado há 20 anos para suprir a falta de espaço reservado aos filmes de arte. E ao contrário do que muitos podem pensar, o local possui público suficiente para as três sessões exibidas diariamente.


Localizado nos jardins da avenida da praia de Santos, ao lado do canal 3, o Cine Arte Posto 4, mantido pela Secretaria de Cultura de Santos, foi alvo de reclamações quando algumas das 48 poltronas encontravam-se rasgadas e o som estéreo não era mais eficiente. Porém, no segundo semestre do ano passado, o espaço passou por uma grande reforma na estrutura hidroelétrica e elétrica, nas poltronas, sistema de som e projeção.

De qualquer maneira, a estrutura do local é bem diferente de um cinema convencional. Um cubículo simpático, em que as pequenas poltronas possuem um tom laranja forte dentro de uma sala completamente preta. E, a propósito, esqueça sua pipoca.

Há 11 anos na coordenadoria do Cine Arte Posto 4, Nivio Mota é quem seleciona os filmes que entrarão em cartaz. Ele me recebeu em seu escritório, dentro do MISS (Museu da Imagem e do Som de Santos) e contou que é rigoroso no critério de escolha da programação. “É necessário que o filme tenha padrão de qualidade. Levo em consideração a importância do filme, se ele já foi premiado em festivais e qual a importância do diretor no mundo”, afirma.

Nivio explica que os filmes de artes possuem poucas cópias em película e por isso o agendamento é feito de acordo com a disponibilidade nas distribuidoras. “Diferentemente dos filmes comerciais, os filmes de arte possuem cerca de três cópias em um país, às vezes apenas uma, então a programação tem que ser pensada com muita antecedência. Estamos em março, mas já estou pensando em filmes para julho”.

Com um público de aproximadamente 3.000 pessoas por mês, o objetivo do cinema é dar oportunidade aos moradores da região para terem acesso àquilo que se faz pelo mundo na sétima arte e é diferente do comercial. “De repente as pessoas começam a descobrir um novo universo, porque realmente é diferente do que é convencional nos cinemas de shopping. Se você parar para pensar, o cinema não é arte, mas não me entenda mal. O que quero dizer é que roteiro é a arte. A história é a arte. O filme pronto é um produto.”

Aqueles que pensam que os frequentadores dos cinemas de arte são estereotipados estão muito equivocados. Claro que depende muito da sessão e do roteiro do filme, mas Nivio afirma que o público é variado. “Existem os intelectuais, a turma dos tatuados com cabelo azul, a velhinha, os curiosos, os universitários e as pessoas que buscam um bom filme depois do expediente”.

Ao ser questionado sobre ser também um ponto turístico, Nivio diz que sim, mas que a primeira impressão do turista é de espanto “Caramba! Um cinema na praia? É assim que a maioria reage, mas no bom sentido. Eles curtem a idéia e assistem aos filmes.”

Freqüentador do Cine Arte, Eduardo Ricci, coordenador do Cineclube Lanterna Mágica, localizado na Universidade Santa Cecília, explica a diferença entre os filmes comerciais e os de arte. “A diferença na estética é que os filmes comerciais geralmente possuem mais brilho, os personagens usam roupas da moda, por exemplo, mas no geral o que muda mesmo é o estilo que o diretor possui.”.

Sobre suas preferências, Eduardo diz buscar um bom filme que mexa com seu imaginário. “Eu gosto do filme que me faz querer mais, não faz diferença se é de arte ou comercial, contanto que seja bom. Vou ao Cine Arte pelo menos uma vez por mês nas sessões em que normalmente já conheço o filme.”.

O público é fiel – Funcionária pública concursada da prefeitura de Santos, a inspetora de alunos Silvia Maria Veloso, de 47 anos, conta que começou a frequentar o Cine Arte Posto 4 há pouco mais de 10 anos para acompanhar seu marido (Na época, apenas namorado). “Ele é um grande fã de cinema e certa vez me levou ao Cine Arte. Até então eu não conhecia esses filmes, mas passei a admirar o diferente. Você raciocina com o tema. Percebe aqueles que são bons e originais, que não seguem o padrão dos demais, sabe? Você não prevê o fim como acontece com os filmes comerciais”.

O estudante universitário de Audiovisual, Flávio Pontes, de 21 anos, conta que filmes de arte são uma fonte de inspiração para seu sonho de trabalhar com produções cinematográficas. “Vou umas três vezes por mês, no mínimo. Tiro idéias para os meus vídeos. Adoro inventar ‘moda’, não gosto de mesmice. Eu e meus amigos buscamos novidades e fazemos algumas filmagens. O Cine Arte é um lugar em que encontro de tudo e tenho acesso a produções de vários lugares do mundo.”

Camila Almeida dá uma checada de vez em quando na programação e vai ao local quando surge o interesse. “É a oportunidade de ter acesso a um tipo de arte totalmente alternativo, sem ficar refém de Hollywood”, comenta, apressada, no caminho para a sessão. 

Bilheteria - O funcionamento da bilheteria é a partir das 15 horas. O valor do ingresso é de R$ 3,00 inteira e R$ 1,50 meia (estudantes, maiores de 60 anos e menores de 18 anos, com apresentação do R.G. e professores da rede estadual de ensino). As reservas (somente para o dia) podem ser feitas pelo telefone (13) 3288-4009. Os ingressos ficam em nome do solicitante até 15 minutos antes de iniciar a sessão.

São geralmente três sessões, a partir das 16 horas. A programação pode ser conferida nos jornais locais de Santos e no site da Prefeitura: www.santos.sp.gov.br.