Por Carlos Norberto de Souza
As histórias deste cantor e b-boy, indicado no VMB de 2001, na categoria Melhor Clipe de Rap, por "Carro Cinza". Um dos primeiros a usar animação num vídeo de rap, logo em seu 1º álbum solo. Não ganhou. Mas já era um dos melhores rappers da Baixada.
Espessas e cinzas nuvens preenchem o céu neste fim de tarde de sábado. Logo mais à noite elas derramarão a já esperada chuva tão comum nessa época do ano - que hora mais inconveniente de aparecer na casa dos outros para meter o nariz onde não fui chamado. Papel de repórter. Quase duas horas atrás, do lado de fora do alto portão de alumínio, desses que têm em cima umas pontas de lança antiladrão, escutei a voz de dona Rosângela - nem sabia que o nome dela era Rosângela:
- Quem é?
Identifiquei-me e disse que havia combinado de entrevistar o esposo dela. Eis a resposta:
- O Daniel não está! Acho que ele vai chegar lá pelas 5 horas (da tarde).
E no horário impreciso, revelado pela companheira do personagem principal dessa história, voltei. Desta vez, tive mais sorte, ao bater palmas, minha presença é pressentida por ela:
- Ele já vai!
E ele veio. O nome de batismo é Daniel Paixão, mas é conhecido no universo do hip hop como Criminal D, b-boy desde a adolescência e rapper há mais de 20 anos.
- Ô, doutor! – brinca, cerimonioso, ao me ver vestindo calça jeans, tênis e uma camiseta vinho, certamente fazendo uma comparação a nossa primeira conversa, em que eu usava apenas chinelo, bermuda e camiseta.
Daniel, quer dizer, Criminal D (chamem-no como quiserem), acaba de ser arrancado de um cochilo iniciado após a volta do trabalho pesado na estiva, onde é encarregado, junto com os colegas, do embarque e desembarque de caminhões recheados de produtos. Mas, dona Rosângela é impiedosa. A casa passa neste momento por uma faxina completa e, por isso, nossa presença lá dentro não será tolerada. Por esse motivo, o dois blocos de concreto defronte à calçada tornam-se os assentos onde será feita a entrevista. Não é nenhum sofá do Jô, mas serve.
Filhote da Zona Noroeste de Santos, de Maria Cecília de Oliveira Paixão e de Ademar da Paixão, há 42 anos, Daniel era uma criança cheia de energia (não sei se hiperativa, só um especialista poderia afirmar). Igual a qualquer garoto de dez anos, pelas ruas barrentas da ZN, como os moradores daqui chamam a região, empinava pipa e jogava bola. Mas o pequeno Criminal D tinha uma peculiaridade:
- Minha infância era trocar porrada com a molecada. Gostava muito de brigar na rua. Queria ser o dono do território, parecia um cachorro. Se alguém passasse pela minha rua, eu ia lá pegar.
Nessa época, a Areia Branca vivia a febre da Capoeira. Daniel conta que o bairro era o “foco” do esporte, contagiava a todos.
- Bandeira, Lima, Carneirinho, Eli, Marinheiro, eram ‘os caras’ da Capoeira, de atitude. Capoeira fight, mesmo. Todo mundo tinha medo deles.
Um dia, ele foi visto por um grupo de pessoas vestidas de roupas brancas, carregando berimbau e outros instrumentos, plantando bananeira e fazendo outras “macaquices”. Era o pessoal do mestre Bandeira. Logo perguntaram se ele não gostaria de aprender também “a arte marcial brasileira”, como muita gente gosta de denominar esse esporte, cujas raízes estão nos negros escravos vindos da África.
Mas a mãe dele, dona Maria Cecília, por causa do batuque e dos cânticos, não nutria muita simpatia por essa arte afro-brasileira: achava que era “macumba”, no sentido depreciativo da palavra. Não era o som dos instrumentos nem o canto os objetos do encanto de Daniel, mas sim o gingado e as acrobacias. No rap “Voltando a fita”, está retratado um pouco desse período. Nessa época, por influência de Jorge, irmão três anos mais velho, ele já ouvia e dançava funk. Não o funk carioca, mas o ritmo nascido nos guetos negros dos EUA. Jorge ia à Elos, uma pequena casa, que existe até hoje, onde aconteciam bailes regados a funk e soul music. Aqui, estamos no final dos anos 70.
- Eu via os caras dançarem de black power, eu ficava maluco, falava: É isso que eu quero ser!, relembra Daniel. O black power (poder negro), como era chamado aquele cabelo volumoso, moda na época, simbolizava o orgulho de ser negro.
Jorge ensaiava em casa para ir dançar na Elos, ao som de James Brown, George Clinton, Funkadelie, e por aí vai. Não demorou para Daniel começar a dominar os passos e se destacar. Ah, ele também aprendia observando os outros. Por falar em Elos:
- Eu era barrado. Teve uma vez que eu falsifiquei a carteirinha da escola para entrar na Elos. Só podia entrar com 15 anos, mas eu ia fazer 12. Quando eu vi a galera lá dançando funk, falei: Tô em casa!
Começou cedo a fazer apresentações de dança em um grupo de dez integrantes chamado Black Time Soul - o irmão dele era um dos membros. Por ser um grupo numeroso, foi dividido: a BTS de Santos e a BTS de São Vicente. Eles freqüentavam os bailes da Beira-Mar (em SV), do Raízes (Rua Bahia, no Gonzaga) e do Praia Clube (também em SV, que ainda existe). Havia ainda a Drops, que ficava na Vila Mathias, Centro de Santos. A lista não acaba por aqui. Onde existisse baile, a Black Time Soul estava lá para mostrar o que sabia. A fissura era tanta, que eles “penetravam” em festas de casas particulares para dançar, diziam ser amigos do dono. Transformavam-se na atração e, no final, o dono da festa os abraçava, oferecia Coca-cola e salgadinhos.
Em 1982, Toni Tornado fez um show no Ginásio Poliesportivo do Dale Coutinho, reinaugurado como Conjunto Poliesportivo em 2008. Com a canção BR-3, Toni era a referência da black music da época, no Brasil. E, claro, não perderiam o show por nada nessa vida.
No começo da década de 80, começou, no Brasil, a transição da soul music para o hip hop e para o break. Enquanto alguns continuaram na black music, outros ‘pegaram o bonde’, cuja partida foi dada nos EUA, em direção ao hip hop. Aqui o pessoal ainda dançava o funk, mas lá fora o break já dominava, era uma continuação da cultura de rua. Criminal D percebeu isso por meio de um videoclipe:
“O grupo Chic, americano, tinha uma música que a gente dançava muito, mas nunca tinha visto uma imagem de clipe. Nós dançávamos só ouvindo a música. Mas em meados de 83, eu vi o cara fazendo um wave (um movimento ondulatório usando os braços) e falei que p... é essa!?! – a história do videoclipe era a de um menino que havia matado aula para dançar break na rua, e no final, a mãe do garoto corria atrás dele com a cinta na mão”, lembra.
Daniel só viu essa parte, não pôde gravar para ver outra vez, já que não possuía videocassete, mas tinha certeza de que havia mais coisa ali. Como não havia a opção de alguém ensiná-lo, ele se viu obrigado a inventar passos buscando inspiração pelos meios de que dispunha, principalmente, em filmes. Nas películas sobre mitologia grega, por exemplo, ele assimilava os movimentos de estátuas que se mexiam, dos seres míticos e, a partir daí, criava novos estilos. A mesma coisa fazia ao assistir a filmes de animais pré-históricos, reproduzia o jeito de andar de dinossauros e misturava os movimentos. Pinçando de tudo um pouco, ele produzia uma verdadeira miscelânea de criatividade.
“Tudo que eu via e achava que dava pra transformar em dança, eu usava.”
Em meados da década de 80, o Brasil já era tomado pela febre do break, principalmente nas grandes metrópoles, como São Paulo. Assunto que chegou a ser abordado no Fantástico, em 84. A reportagem pode ser vista no YouTube, pesquisando-se a “A febre do ‘break’ – ‘Fantástico’, 1984”. As imagens mostram as ruas de Sampa tomadas por fãs do ritmo e da dança, durante um festival na Praça da Sé. Daniel estava no meio dessa multidão.
“São Paulo era o coração e uma das artérias trazia o break para Santos”, afirma.
Durante anos Daniel ia para SP toda semana, mas se dependesse exclusivamente da vontade dele, teria ido todos os dias. A galera dançava nas ruas. Há pessoas que ainda pensam que ele mora lá. Pelas curvas das ruas paulistanas, santistas e da vida, esbarrou com nomes hoje conhecidos da cultura hip hop como Mano Brown, Thaíde e Nelson Triunfo.
Além da praça da Sé, ele também dançou na rua 24 de maio, no Centro, onde também havia a Galeria do Rock, point da música black desde a década anterior. Não podemos esquecer a Estação São Bento do Metrô, templo do hip hop. Já existe um documentário intitulado "Nos Tempos da São Bento", de Guilherme Botelho, que retrata a importância da estação para a história do hip hop. Daniel é um dos personagens entrevistados.
Mas, segundo ele, por aqui o novo estilo de dança ainda tinha menos força, quase ninguém dançava break. Por essa razão:
“Eu caçava. Em todo lugar que eu sabia que tinha alguém que dançava, eu ia lá para ver qual era nível. Quando eu via que os caras estavam muito fracos, eu falava: não dá meu irmão! Porque o “classe a” (o ideal) era duelar, mas não tinha ninguém para isso.”
Em um lugar de São Paulo, onde ninguém o conhecia, todos pensaram que o paulista vindo da Baixada Santista era um b-boy importado da terra do Tio Sam. Um amigo deu a idéia: ele não falou, só dançou. No final as pessoas pediram autógrafos e o “americano do Paraguai” assinava “Daniel D”.
O já citado Thaíde, Daniel conheceu em 1985, no Programa Barros de Alencar, da TV Record. Neste ano, o grupo de break do qual fazia parte já se chamava Gangue de Rua. A primeira equipe dele (de 83) foi a The Masters Boys Breakers.
A década foi acabando, o Hip Hop ocupando novos espaços e o Daniel Paixão passando por nova transição na vida.
Aos 19 anos tornou-se pai, nascia Érick, agora com 23 anos. No ano seguinte, em 1989, trocaria alianças com Rosângela, cuja voz escutei logo no início desta reportagem, e ainda ecoava em meus ouvidos. Ah, já estava esquecendo de dizer também que Daniel ganhou a medalha de bronze nos Jogos Abertos do Interior de 87, em Santos, quando concorreu como boxeador. Porém, o boxe não era uma prioridade. A dança, essa sim, desfrutava de total zelo e dedicação. Ele costumava sair da concentração para ensaiar break.
Nessa época, as rimas estavam pipocando, prenunciando o que, nos anos 90, seria a explosão do rap no Brasil. Shows de grupos de rappers estrangeiros começaram a acontecer por aqui. Um dos que marcaram a vida do Daniel foi o show do conjunto norte-americano, Public Enemy, em 1991. Neste mesmo ano, a Zimbábue, uma equipe de música black de SP, que tinha um programa radiofônico, veio realizar um baile em Santos. Como perceberam que havia muita gente cantando rap, promoveram um concurso para escolher o melhor rapper da Baixada Santista. Criminal D ganhou. Existiam ainda outras equipes de som como a Chic Show, a Black Magic e a Circuit Power, todas com programas de rádio. Quem era do movimento hip hop, sintonizava nelas.
Antes da chegada da Internet, o pessoal “atualizava-se” por meio desses programas (diziam ter conexão direta com Nova Iorque), de revistas especializadas e de pessoas com maior poder econômico, que traziam as novidades do exterior. Além da TV, naturalmente, estas eram as fontes de informações sobre o hip hop no Mundo. São Paulo estava mais próxima das informações, por isso, todo mundo queria estar lá. “Uma revista trazida dos Estados Unidos era tudo pra nós”, recorda, Daniel.
Criminal D viu todas as metamorfoses do hip hop em nossa terra. Antes, cultura dos guetos. Hoje, apreciado por gente de todas as classes sociais. Isso é bom. Mas a maioria das baladas de black music existentes, pelo menos em Santos, são para públicos seletos, mais abastados economicamente. Criminal reclama que, por esse motivo, quem não pode pagar para entrar em lugares como, Bikini Barista e Coqueluche, é deixado de lado. O que vai totalmente de encontro à essência do hip hop. Ou seja, quem vive o break, o rap diariamente, perde espaço para outros que estão ali só para curtir uma balada, e nada mais.
Integrante da primeira geração do hip hop, atualmente ele, que deixou de ser Daniel D (em 89), pois “o nome não tinha aquela imponência” não tem mais tempo para se dedicar ao break. O novo nome artístico foi inspirado no disco Criminal Mind, de Burkdow Production. A família cresceu. Nasceu Daniele, hoje com 21 anos, e os gêmeos Denner e Deyver, de 10 anos.
Para sustentar o “clã”, ele foi cabeleireiro, guarda municipal, dava aulas de boxe e agora é estivador.
Mas, como Criminal D participou de coletâneas com outros rappers e artistas de estilos musicais diferentes. Em 2000, lançou seu primeiro CD solo junto com o videoclipe da música “Carro Cinza”. Este clipe foi indicado, no ano seguinte, ao Vídeo Music Brasil (premiação da MTV Brasil), na categoria Melhor Clipe de Rap. MV Bill ganhou o prêmio com o videoclipe “Soldado do Morro”. Apesar de não ter levado o prêmio, Criminal gravou participação em um DVD do cantor Jair Rodrigues, já fez parceria com Pedro Mariano, filho de Elis Regina, e Rappin Hood.
Por falar nele: o grupo do Rappin Hood chamava-se “Posse e Mente Zulu”. E um dia, conta Daniel, eles foram cantar numa favela. A polícia chegou lá, fazendo o maior papelão, atrás do “tal Zulu, dono do pó e da semente”. Segundo Daniel, o Hood sempre conta esta história marcante da carreira dele. E são tantas histórias contadas por Criminal D, que fica difícil inseri-las numa só matéria.
Após um tempo sem fazer apresentações, Daniel quer retornar apenas quando lançar seu novo CD, lá pelo meio do ano. Será um disco com oito músicas. Há ainda o videoclipe da canção “Catraca 14”, que está em fase de gravação. Assim, Daniel, ou Criminal D segue vivendo o hip hop e cuidando de sua família.
Origem do Hip Hop
O Hip Hop originou-se dos bairros pobres e oprimidos socialmente de Nova Iorque. Afrika Bambaataa é reconhecido como o criador oficial do movimento e idealizador da junção dos seguintes elementos: o rap, o DJ, a breakdance e a escrita do grafite.
Habitados essencialmente por negros, hispânicos e membros de demais minorias étnicas, esses bairros eram verdadeiros guetos onde as taxas de criminalidade cresciam proporcionalmente ao desemprego. Neste contexto de exclusão social, as gangues encontraram o terreno ideal para se multiplicarem. Um delas, segundo o livro “Hip Hop – Cultura Marginal”, de Jessica Balbino e Anita Mota, era a Black Spades, “com uma proporção que permite a sua divisão em facções, partidos e sub-gangues, marcando o bairro com atos de vandalismo”. Isso em meados dos anos 60. Eram grupos compostos por jovens desses “guetos”, que reagiram à opressão social por meio de violência. Por tradição norte-americana, os grupos étnicos não se misturavam, por isso, existiam gangues de negros, hispânicos, asiáticos, etc. Confrontos armados eram freqüentes entre elas. Nos idos dos anos 70, os índices de criminalidade chegavam ao auge.
O jovem Bambaataa, cujo nome de batismo é Kevin Donovan, era um dos líderes de uma das facções da Black Spades “cansado das brigas, colecionador de discos e apaixonado por música”. E produtor de festas no Bronx, onde tocava seu som. “Estas festas vão aos poucos tomando o espaço das ruas, enquanto as gangues são esquecidas, dando lugar aos bailes, conhecidos como block parties, festas de quarteirão”, afirmam as autoras. Ou seja, os membros das gangues passaram a trocar as disputas violentas por território por duelos de dança. As gangues tornaram-se crews (equipes, turmas, grupos). “As crews mantiveram a postura de protesto das gangues, mas sem violência, levando ao mundo o refrão criado por Afrika Bambaataa: “peace, unity, love and having fun” - paz, união, amor e diversão.”
Foi com essa ideologia que Bambaataa fundou o Hip Hop: a troca da violência pela disputa artística.
Os pilares da cultura hip hop
Break
O breakdance, criado por porto-riquenhos para demonstrar insatisfação com a Guerra do Vietnã, foi inspirado em movimentos de artes marciais, como o Kung Fu. Esse estilo de dança se expandiu com as gangues nova-iorquinas, que demarcavam território deixando suas assinaturas (grafite) pelos muros da cidade. Porém, nos momentos de festa e descontração seus membros dançavam o break. Com o tempo, gangues de rua passaram a abandonar as brigas por disputas de dança. O b-boy (breaker boy) é o dançarino de break. Esta expressão surgiu nas festas do Bronx (NY), nos anos 70, onde os b-boys dançavam ao som do funk de James Brown, George Clinton, entre outros artistas.
O break foi o primeiro elemento do Hip Hop a ser introduzido em nosso país. Nelson Triunfo, o Nelsão, foi o pioneiro e responsável pela difusão da cultura hip hop pelo Brasil.
Lockin
O Lockin é a dança mais clássica do hip hop. Surgiu no início dos anos 70, em Los Angeles, Califórnia, criado por Don Campbell. Anos depois, Campbell formou o The Lockers, primeiro grupo profissional de street dance de que se tem notícia. Influenciado pelo funk, os passos são compostos por movimentos detalhados de braços, cotovelos, mãos, dedos. Existem poucos lockers por aí.
Power Move
São giros, saltos, acrobacias e todos os demais movimentos corporais. Não é considerado um estilo de dança, mas o nome de um conjunto de movimentos de altos níveis de dificuldade, que acrescentam muito às habilidades de um b-boy.
Poppin
Surgiu também na década de 70, numa cidade da Califórnia, chamada Fresno. Criado por Boogaloo Sam, idealizador do grupo Electric Boogaloo, o poppin é a evolução da robot (apenas a reprodução dos movimentos de um robô). Hoje, este estilo é muito mais complexo, tem efeitos ilusionistas, mímica, dança indiana e muitas influências.
DJ
Um Disc Jockey, ou DJ (dí-djei) é quem utiliza técnicas de som para misturar músicas, usando suportes como vinil, CDs e efeitos sonoros digitais - a mixagem. Os DJs surgiram nos anos 50, mas só se consagraram três décadas depois, na era das discotecas. O primeiro DJ do mundo, Kool Herc, jamaicano de Kingston, criou os “sound systems”, aparelhos de mixagens de músicas. Existem também registros de que o DJ “Big Youth” já tocava na Jamaica, na década de 50.
O DJ é um elemento do Hip Hop fundamental para o Rap, que, sem ele, perderia o ritmo e o brilho. No Brasil, temos nomes de destaque como KL Jay (Racionais MCs), DJ King, DJ Negro Rico, DJ Primo, DJ Cia, DJ Hum, entre outros.
Rap
Rythm and Poetry (RAP) significa “rítmo e poesia”. Nos anos de 1960, no país de Bob Marley, em volta dos “souds systems”, os jamaicanos reuniam-se para ouvir um som de protesto, feitos pelos “Toaster”, espécies de MCs (os MCs eram os mestres de cerimônia, animavam as festas. Agora eles são as atrações principais). No começo dos anos 70, esse meio de expressão foi levado aos Estados Unidos, pelo DJ Kool Herc, junto com milhares de conterrâneos, que emigraram para a América, em busca de melhores condições de vida. Esse estilo teria dado origem ao rap. Não demorou para surgirem diversos grupos em todos os guetos de Nova Iorque.
No Brasil, o rap começou a se expandir nos anos 80, com MC’s pioneiros como Pepeu e Mike. Mas o auge do rap nacional só aconteceu a partir de meados dos anos 90, com grupos como o Racionais MCs.
FreeStyle
É a rima improvisada. Há MCs que fazem rimas sobre qualquer assunto a qualquer hora. Os duelos são o que há de mais empolgante no Freestyle. Um nome importante da atualidade é o rapper Emicida.
Mais exemplos de gente que vive o Hip Hop
André Cardoso da Rocha, 25 anos, é criador do site “DeRua” (http://derua.com.br/), cujo objetivo é promover e divulgar qualquer tipo de evento e ação sobre o movimento hip hop do Litoral Paulista.
Participou também da organização e criação do Coletivo Hip Hop Caiçara, em outubro de 2009, que articulou com o Poder Público e sociedade civil dos nove municípios da região a realização de encontros municipais e um Encontro Metropolitano, este realizado em janeiro de 2010, em Guarujá. O objetivo dos encontros foi discutir a realidade e futuro da cultura hip hop. Foi deliberada ainda a produção de um documentário para registrar a história do movimento na Baixada, em fase inicial de pesquisa, com a ajuda de estudantes universitários voluntários adeptos dessa “cultura de rua”, e, no futuro, a realização de um censo para saber quantos e quem são os integrantes do Hip Hop por aqui. Em breve será lançado o caderno com tudo o que foi debatido. Uma outra meta é ajudar o hip hop a sair da informalidade, envolvendo o Poder Público.
Ele é morador de São Vicente, onde participava de um grupo chamado Breakdance. Formado em Educação Física, na Universidade Santa Cecília (Santos/SP), também integra o Conselho Municipal da Juventude de sua cidade. O CMJ-SV atua em favor da autonomia e protagonismo social dos jovens.
Um b.boy professor
Ele nasceu em São José dos Campos há 19 anos. Aos 12, veio para Santos com sua mãe, que havia se separado do esposo e pai de Douglas dos Anjos. “Eu achava que eles estavam brigadinhos. Mas tinham se separado. Fato!”. A mãe, segundo ele, não o deixava sair muito. Mas quando se mudou para a casa do pai, começou a frequentar “baladinhas black” com os amigos da escola. Estudava na escola “Cleóbulo Amazonas Duarte”, no Canal 3. Curtiu o que os b.boys dançavam. Na dança, o break foi sua primeira paixão. É, segundo Douglas, o “mais famoso”, o que chama mais atenção. Ele morava parte do tempo com a mãe, parte com o pai. Quando seu pai morreu, Douglas ficou perdido e até meio revoltado.
Era nas baladas que ele extravasava. “Não queria fazer mais nada, só queria ir pra balada”. Hoje, o jovem está encontrando seu caminho. Sua mãe descobriu o Centro da Juventude da Zona Noroeste, onde Douglas participou de um projeto de comunicação. Nesse período, fez ainda teatro e curso de produção audiovisual no Instituto Arte no Dique. Desde 2010, ensina Dança de Rua para crianças e adolescentes no Centro da Juventude. Pode parecer clichê, mas suas aulas são brincadeiras muito sérias.
“Na atividade”
“Eu sou um cara tímido para c..., muito nervoso, genioso. Mas sou inteligente.”. Nessa hora eu brinco acrescentando “e modesto”. Michael considera-se uma pessoa cheia de defeitos “Até minhas qualidades são defeituosas”. Já o chamaram de metido, egoísta, mal-encarado, retardado. Ele confessa que é inseguro. Mas a sinceridade é muita, como podem ver. E prejudica-o. “Eu falo mesmo, na cara!” Seu pior defeito, na opinião dele mesmo, é a demora para agir. “Eu penso demais e, às vezes, não faço”.
Talvez a melhor qualidade de Michael (ele se diz prestativo e proativo), é o sonho que nutre. O sonho de ser um rapper reconhecido. Ele começou a curtir rap aos 9 anos, por causa do pai. Primeiro ouvia só rap estrangeiro. O cantor norte-americano Eminem foi inspiração. Depois só rap nacional. Aí misturou tudo. Mas foi de muito escutar rap brasileiro, de escutar as músicas cantadas em português, que Michael fez as primeiras rimas. No início, “bobas”, como ele mesmo diz. Mas ao tomar gosto pela coisa, ficou viciado em fazer letras. Caminhando pela casa, fazia rimas com os móveis e os eletrodomésticos que via. Coisa de maluco!
Em suas letras ele gosta de falar da realidade. Do que acontece nas esquinas escuras, nas ruas, na favela. Sem meias palavras. Os cadernos que guarda embaixo da cama, numa caixa de sapatos, estão cheios delas. Ele mesmo é um alvo de suas letras, cuspidas das entranhas. Ele é fã de Criminal D, de Histórias em quadrinhos e videogames. Lê de tudo: livro, dicionário, palavras cruzadas. Sherlock Holmes e a Bíblia são as melhores leituras para fazer rap, segundo Michael. Sempre com um pedaço de papel para anotar as rimas que brotam da cabeça, ele anda por aí. Quem sabe ele chega lá. Sempre “na atividade”.
Informações do site “DeRua” e do livro “Hip Hop – Cultura Marginal”, de Jéssica Balbino e Anita Motta